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Dica de leitura, por Carla Osório

dicas leitura 

 

Carla Osório escreve sobre personagens de Camilleri 

Não vou falar de um livro. Vou falar de personagens, aqueles que se tornam nossos amigos, com quem conversamos e nos enternecemos.  Salvo Montalbano, personagem dos romances policiais de Andrea Camilleri, é um desses camaradas. Ele é caloroso, mal-humorado nos dias cinza (já se faz sol ele até pode distribuir sorrisos), gosta da boa mesa, de leitura e é um bom-papo, embora um namorado – digamos distraído (mas isso é outra história que ele tem que resolver com a Livia, sua eterna noiva). Salvo é daqueles personagens que humanizam a literatura, a tornam tão próxima que a localizamos no nosso vizinho, isso tudo sem perder a elegância e a crítica social que transparece em seu cotidiano.
Como não acompanhar as receitas da culinária siciliana, elaboradas pela Adelina, os diálogos com Catarella, cuja lógica é imbatível apesar de incompreensível no dia-a-dia, as implicâncias com Mimi e Fazio, que insiste em fornecer os dados cartoriais de todos os implicados em cada caso?
Esqueci de dizer que Salvo é siciliano, comissário de polícia da cidade de Vigáta, onde, aliás, se passa a maior parte dos romances de Camilleri (não percam, por favor, a Pensão Eva e Ópera Maldita, dois romances históricos deliciosos). Mas nada de máfia, embora ela esteja ao fundo das tramas sociais.
Enfim, Salvo Montalbano é essencialmente humano, não tem a brutalidade nem o cinismo que transparece nos romances policiais americanos, nem privilegia a lógica como os personagens dos romances britânicos. Ele é uma pessoa como tantas que conhecemos e aí, me parece, está o grande feito de Camilleri, criar um personagem cuja singularidade é a sua nossa própria humanidade.
Vale a pena conhecê-lo. Além do mais, Camilleri batizou Salvo de Montalbano em homenagem a Manuel Vasquez Montalban, escritor espanhol (ou catalão?), que deu à luz um cara fantástico, que é o detetive Pepe Carvalho, outro grande amigo sobre quem vou falar outra hora.
Ah!… e se Pepe Carvalho e Salvo Montalbano se reunissem? Que grande jantar teríamos!  

CARLA 005Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

 

 

 

 

 

Um pouco mais de Andrea Camilleri:

ANDREA CAMILLERIAndrea Camilleri nasceu em Porto Empedocle (Agrigento, Itália), em 1925. Iniciou a sua atividade como encenador, autor de teatro e televisão mas, a partir dos anos oitenta, passou a dedicar-se à narrativa com mais frequência. O entusiasmo e a admiração dos leitores foi crescendo, assim como o interesse da crítica, quer pelas aventuras satíricas, quer pelos romances policiais ambientados na Vigàta atual do comissário Montalbano, protagonista recorrente nos romances de Camilleri.

Obras editadas no Brasil:

A forma da água, Record, 1999
O cão de terracota, Record, 2000/ Best Bolso 2008
O ladrão de merenda, Record, 2000
Um fio de fumaça, Bertrand Brasil, 2000
A voz do violino, Record, 2001
Por uma linha telefônica, Bertrand Brasil, 2001
Um mês com Montalbano, Record, 2002
O cheiro da noite, Record, 2003
A ópera maldita, Bertrand Brasil, 2004
O rei de Girgenti, Record, 2004
Guinada na vida, Record, 2005
Temporada de caça, Bertrand Brasil, 2005
A lua de papel, Record, 2007
A primeira investigação de Montalbano, Record, 2008
A pensão de Eva, Record, 2009
O ano novo de Montalbano, Record, 2009

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2 Responses to “Dica de leitura, por Carla Osório”


  1. 1 Luciano Mattuella
    10 de setembro de 2009 às 18:02

    Carlita,

    Entre as palavras cruzadas e as cruzadas literárias, adorei te encontrar neste texto! Acabei de ser apresentado a um novo amigo!

    Obrigado!

  2. 9 de setembro de 2009 às 05:55

    Interessante. Não é a primeira vez que leio sobre Camilleri, mas é o momento em que me deu aquele estalo. Agora eu quero! O momento, ou o comentário da Carla Osório. Porque há formas e formas de se despertar o interesse do leitor, e ela consegue isto, aqui. Agora, veja o meu pecado. Sou apaixonado por romances policiais. Talvez pela profissão, que se funde com o hobby, sei lá. Mas é coisa que vem de menino, por isto ainda acredito nela. E gosto do romance policial brasileiro, mas do bom, tipo Garcia-Roza e outros tantos. Que nem são tantos assim. Dos americanos e ingleses, sublinho o que disse Carla no comentário. Mas eu sempre gostei do francês Maigret, confesso. E, depois de ler esta resenha, desconfio que tendo a gostar dos italianos. Ou, pelo menos, de Camilleri. Parabéns à autora. E obrigado pela dica, gente.


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