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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Aprender

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Aprender, por Jaime Medeiros Júnior

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O livro chegara recentemente. Gostei bastante dele quando comecei a folheá-lo.  Aquilo ali escondia um bom número de signos impressos a serem desbaratados. Signos agora ali postos a altura da mão. Neste momento somos meros conhecidos. A aposta agora é desenvolver uma experiência, um querer bem, e se possível até um amorzinho entre nós.

Vêm os dias. E nos guardamos ali na esperança de sermos úteis, tivemos de sair das trevas das nossas alcovas tépidas de nosso desfalecer cotidiano, desfalecer na servidão dos sentidos e instintos em que habitamos, que nos fazem iguais e nos nivelam e nos dizem que ainda podemos esperar nos reconhecer neste outro que também traz consigo este saco de gulas e desejos em tudo semelhante ao que carregamos. Mas se queremos ser gente haveremos de condescender um pouco com tudo isto. E ainda que não percebamos, mesmo aqui temos um pouco de luz. Algo de uma luz reflexa, de uma luz fria e muito pouco nossa. Feita de copia, e de métrica.

Noites e dias passam depressa. Seguimos a dar de olhos um no outro. Nos acostumamos um com o outro. E neste momento podemos já falar de um saber recôndito, despegado da letra, acostumado às reentrâncias de cada um de nós, e daquilo que o tempo determinou de aperfeiçoamento nos encaixes. E assim nos pusemos a nos despossuir daquele saber antigo e natural vindo de nossos pais, todo prescrição, todo feito de boas maneiras, normativas e convenções. Agora tu queres, ou melhor que isso, tu percebes o inscrito. E inscreves. Nada mais é relativo aqui na nossa relação. Nos pusemos a caminhar na mesma direção. Podemos dizer que formamos um time. De conhecidos que éramos passamos a parceiros, a companheiros de jornada.

Mas nada disso haveria de nos acontecer se não fora este istozinho que está pra além de nós. Os teus signos, e a nossa esperança nada seriam se a pergunta não te fosse arrojada a face. Se não fôssemos tomados pelo susto. Pois Alice não veio aqui a passeio. E não há nada de absurdo no absurdo que nos cerca.  E no fim, e no meio e no princípio de tudo, bem lá do alto do seu cogumelo, sempre resta, uma lagarta a nos perguntar: quem é você?

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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4 Responses to “A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Aprender”


  1. 10 de dezembro de 2010 às 08:33

    Excelente texto, parabéns! obrigado.
    Abraço

  2. 10 de dezembro de 2010 às 04:35

    Jaime,
    esse teu querer bem ao livro é contagiante.
    Deu vontade de ler…

    abraço!

  3. 9 de dezembro de 2010 às 08:05

    Compadre Jaime, como sempre, ressignifica leituras, auxilia a ampliar o horizonte das percepções que a leitura tem o dom de nos proporcionar. É bom aprender lendo…

  4. 4 Ida Katzap
    8 de dezembro de 2010 às 19:49

    Maravilha, Jaime. Aprendendo….


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