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A quase-crônica de Nelson Safi: A literatura é edificante?

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A literatura é edificante?, por Nelson Safi

Nesta semana li um texto muito bom no “estadão virtual”, escrito pelo Mario Vargas Llosa; publicado originalmente no El País, Espanha (veja aqui). Ele comentou a decisão do governo francês de tirar da lista de comemorações nacionais o nome do escritor Louis-Ferdinand Céline, pelo fato de este ter ideias antissemitas. A crítica de Llosa se deve ao fato de que a reverência era dada à qualidade da produção literária de Louis-Ferdinand e sua relevância no contexto da literatura francesa. Ou, traduzindo para um linguajar bem popular, o cara é podre, mas o trabalho dele não, e são duas coisas bem distintas.

Feito o prólogo, quero dizer que gosto muito quando acontece de se ter as duas avaliações positivas; ou seja, a obra é de qualidade e o caráter do escritor segue a mesma linha. Com certeza daria para citar vários nomes, mas o que mais aprecio entre estes é o Tchékhov (Anton Pávlovitch Tchékhov). Até conhecer o Charles Kiefer (outro que se encaixa na dupla avaliação positiva) eu havia lido uns dois ou, quando muito, três contos do médico russo. E não fazia a menor ideia do quanto ele foi genial. Acredito que, depois da orientação do Charles, devo ter lido quase tudo que existe de traduzido deste escritor. E não foram apenas os contos, também suas peças teatrais e suas cartas tinham um grande valor literário. No “Cartas a Suvorin – 1886-1891″ (Edusp, 2002) tem-se uma amostra da sensibilidade que o diferenciava dos demais escritores. Como exemplo, coloco este trecho de uma carta em que  falava de um aspecto da vida no campo, onde esteve passando suas férias de verão:

“… Os silvos, os arquejos, os roncos da máquina, surdos como os de um pião, que se fazem ouvir no mais duro da lida, o ranger das rodas, o andar preguiçoso dos bois, as nuvens de fumaça, os rostos suados e negros de quase cinquenta homens – tudo isso ficou gravado na minha memória como o Padre-nosso. E, desta vez também, passei horas a fio na debulha e senti-me extremamente bem. A máquina, quando trabalha, parece viva, tem uma expressão astuta, brincalhona, ao passo que as pessoas e os bois, ao contrário, parecem máquinas…”

E quem foi Tchékhov fora da literatura? Homem de origem simples, formou-se em medicina e a tinha como atividade principal. Dizia que a medicina era sua esposa e a literatura, sua amante (curiosamente, era a literatura que lhe garantia um aporte adicional de renda). Teve intensa atividade de cunho social e esteve envolvido no trabalho de construção de escolas. Em 1890, aos trinta anos, partiu para a ilha de Sacalina, local de prisões mantidas pelo regime czarista no mar do Japão, empreitada que o fez atravessar a Rússia pela Sibéria até chegar no oceano Pacífico. Lá estando, entrevistou todos os moradores-detentos, o que lhe possibilitou um retrato detalhado da situação e características do sistema prisional russo. De volta a Moscou, elaborou um dos trabalhos mais completos sobre o assunto, cujo impacto foi suficiente a ponto desse sistema ser revisto pelo regime czarista.

Em seu precoce final de vida, seus contos cresceram em tamanho e densidade e perderam o humor que os caracterizava. O livro “O assassinato e outras histórias” (Cosac&Naify, 2002) contém seis contos desta fase, escritos entre seus trinta e quatro e quarenta anos de idade (morreu enfraquecido pela tuberculose, em 1904, aos quarenta e quatro anos). Retiro um trecho do conto “O assassinato”, uma história que, certamente, começou a ser germinada em 1890, quando de sua estada em Sacalina; portanto, cinco anos antes de ser escrita, em 1895:

“Certa noite, na enseada de Dveski, na ilha de Sacalina, um vapor estrangeiro ancorou e solicitou carvão. Pediram ao comandante que esperasse amanhecer, mas ele não queria esperar nem uma hora, dizendo que, se o tempo piorasse durante a noite, corria o risco de ter de partir sem carvão. No estreito da Tartária, o tempo pode mudar abruptamente em meia hora, e então o litoral de Sacalina torna-se perigoso. O ar havia esfriado e já se formavam ondas bastante fortes.

Da prisão de Voievódskaia, a mais miserável e severa das prisões de Sacalina, despacharam um grupo de detentos para uma mina. Tinham de encher barcaças com carvão, depois rebocá-las com uma lancha a vapor até o navio, que estava a mais de meia versta* da margem, e lá seria preciso começar o transbordo do carvão – um trabalho torturante, enquanto a barcaça se entrechoca com o navio e os trabalhadores mal conseguem se manter de pé, por causa do enjoo…”

* Versta: unidade de medida russa, equivalente a 1,067 Km.

Sei que poderia ter escolhido um trecho de outro conto, que fosse mais alegre ou, até mesmo, cativante. Procurei apenas mostrar o que faz dele, para mim, um escritor especial: um talento extraordinário para escrever e um caráter da mesma envergadura deste talento.

Abraço,

Nelson Safi

Nelson Safi nasceu em Porto Alegre faz tempo. Iniciou na literatura em 2002 ingressando na Oficina de Contos de Charles Kiefer. Ganhou uns prêmios por aí. Em 2004 lançou seu primeiro livro de contos (por enquanto o único), Balas de coco e outras histórias amargas, e ainda participou da antologia 101 que contam, organizada por Charles Kiefer. Em 2005 participou das antologias brevíssimos! e Histórias de quinta, organização de Charles Kiefer. Em 2006 participou das antologias Contos do novo milênio, editada pelo IEL – Instituto Estadual do Livro, e 103 que contam, ambas organizadas por Charles Kiefer

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Nelson Safi publica no blog da Palavraria mensalmente, na terceira sexta-feira do mês.

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