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A crônica de Mariana Ianelli: Depois do último dia

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Depois do último dia

por Mariana Ianelli

 

Quando as chaves giravam nas portas era a mesma pergunta para El Djohar Akrour e suas companheiras de cela: “Hoje somos nós?”. Da pequena janela dava para ouvir a guilhotina sendo montada lá fora. Isso foi há mais de cinqüenta anos e El Djohar ainda se lembra das correntes nas mãos e nos pés. Como ela, muitos outros que participaram da guerra pela libertação da Argélia passaram pelo corredor da morte.  Alá Akbar, gritavam os que iam para a guilhotina, Alá Akbar, respondiam os condenados de dentro das celas.

Os que receberam indulto agora se lembram. Lembram das noites sem dormir, das orações, das canções, dos lamentos, lembram de jejuar um dia depois da execução de um condenado que poderia te r sido qualquer um deles. Não estavam mais sendo punidos por um crime, estavam levando sua resistência até o cúmulo do sacrifício. Tinham já cruzado o limite das intrincadas questões, das circunstâncias delicadas, dos pequenos problemas a serem resolvidos. Chegaram tão perto do último dia que foi como terem se queimado numa profecia. Lembram de subir nos ombros uns dos outros até a janela engradada no alto da cela porque o que era feito lá fora era feito por eles, a montagem da máquina de calar os insurgentes. Lembram do peso do silêncio, horas longas para cumprir gestos mínimos, aqueles  gestos de todos os dias, cegos,  repetitivos, gestos de que ninguém normalmente se dá conta porque são mecanismos de rotina, absolutamente insignificantes se desta vez não tivessem a consistência de uma vida.

Isso aconteceu durante os anos de terrorismo que encarniçaram a luta entre argelinos e franceses. Quando uma cidade acordava às quatro horas da manhã para acompanhar um dos condenados, quando uma lâmina bem oleada trespassava uma cabeça e as mulheres da casbá respondiam com preces e cantos. Isso aconteceu mais de um século depois de Victor Hugo ter publicado O Último Dia de um Condenado, seu manifesto literário contra a pena de morte, “esse direito exorbitante que a sociedade se outorga, de poder subtrair o que não deu”.

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Ilustração de Alfredo Aquino


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Publicado em Vida Breve

Mariana Ianelli nasceu em 1979 na cidade de São Paulo. Poeta, mestre em Literatura e Crítica Literária, é autora dos livros Trajetória de antes (1999), Duas Chagas (2001), Passagens (2003), Fazer Silêncio (2005), Almádena (2007) e Treva Alvorada (2010), todos pela editora Iluminuras. Como resenhista, colabora atualmente  para os Jornais O Globo – Prosa&Verso (RJ) e Rascunho(PR). Saiba mais sobre a autora em seu blog http://www2.uol.com.br/marianaianelli/

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1 Response to “A crônica de Mariana Ianelli: Depois do último dia”


  1. 28 de abril de 2011 às 23:30

    Muito bom, Mariana.
    Dá para sentir a tensão de quem esteve na fila da morte.
    Abraço,

    N.


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