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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: No caminho para Larissa

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No caminho para Larissa, por Jaime Medeiros Jr.

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Acetil Cefuroxima, data de fabricação 11/2010, prazo de validade 10/2013 , é o que estava escrito na caixa da medicação que comprei na farmácia. É o que, por fim, parece se dar com as coisas que somos capazes de pôr numa prateleira e vender. Têm um prazo de validade, uma data limite, após a qual é conveniente que não mais as utilizemos. O Mênon [escrito em uma data qualquer entre 428 e 327 a.C] ou o soneto Alma minha gentil, que te partiste [escrito em uma data entre 1524 e 1580 A.D.] parecem não trazer em si aposto qualquer prazo de validade, senão aquele intrinsecamente relacionado à materialidade do suporte, a qual também podemos comprar. Pondo-se as coisas nos seus devidos lugares, não se compra na farmácia o medicamento cefuroxima, mas, isto sim, o comprimido, ou o vidro de cefuroxima suspensão. A validade do medicamento se determina por outro prazo, o tempo necessário para que as bactérias hoje sensíveis a ele consigam desenvolver cepas com mecanismos de defesa suficientemente eficientes que as tornem resistentes à droga utilizada.

Há quem queira confundir o Mênon e cefuroxima. Dizendo que o prazo de validade dos antigos acabou e que deveríamos depositar neles apenas a nossa curiosidade, bem como fazemos quanto às técnicas dos romanos para a construção de aquedutos. No entanto o medicamento que nos propõe o Mênon não se pode comprar, meio se ganha, meio se conquista.

Cá estamos diante do livreto, quando de repente uma expressão posta em meio ao texto, estar em aporia, acaba por nos conduzir a um estado de alerta. Aporia, que até este momento nos soava ser unicamente um problema filosófico sem possibilidade de solução, como aquela aporia sobre o tempo que Kant nos propõe na Crítica da Razão Pura. Aqui, no entanto, no ponto em que Sócrates tem de responder ao paradoxo que Mênon tinha lhe proposto – como saber o que é virtude através da pesquisa, pois se não soubermos o que é virtude não saberemos o que procurar, e se por acaso a encontrarmos não o saberemos tê-la encontrado; de outro lado se soubermos o que é virtude, para que procurá-la? Platão, contudo, quando se serve da expressão estar em aporia, ele nos aponta um método, que se dá a partir do espanto que a percepção de que foram sim nossas certezas que nos trouxeram até aqui a este beco sem saída, e que, agora após consequente rompimento com aquelas certezas, bem como a um áporo nos vemos obrigados, depois de termos assimilado muito de nossas tonterias,  a cavar um caminho para fora deste mundéu sem saída em que nos pusemos a viver. Platão, deste modo, acaba por nos dar de presente o poema de Drummond, o Áporo [temos aqui em uma só palavra: inseto, aporia e flor (orquídea)]:

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se

Isto nos leva a fazer a pergunta junto com Kolakowski, no qual lemos en passant, referindo-se a Nicolau de Cusa: Os argumentos de Nicolau de Cusa derivam amiúde do arsenal dos céticos. Ele também é um místico. Isso prova que o cético e o místico podem estar em um só indivíduo. [...] Pode o cristão acreditar em Deus e, ao mesmo tempo, afirmar que não sabe nada sobre ele? E por que não bebermos também do mesmo remédio ao lermos este Camões?

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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2 Responses to “A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: No caminho para Larissa”


  1. 1 sarah
    21 de junho de 2012 às 13:33

    Jaime, bom estar aqui te lendo, um arranque de reflexões em poesia para um início de semana
    e também quero dizer que amei
    sarah

  2. 3 de julho de 2011 às 22:05

    Jaime, bom estar aqui te lendo, um arranque de reflexões em poesia para um início de semana.

    Um beijo carinhoso e gracias.

    Carmen.


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