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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Senhas

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Senhas, por Jaime Medeiros Jr.

Tinha de fazer uma transferência de um determinado valor de uma para outra conta. Putz! Não estava conseguindo concluir a operação. Bah! Já não sabe o que foi que esqueceu [login?!senha?!] desta vez. O certo em tudo isso é que nada se dava, a coisa não ia pra frente e nem pra trás. Resultado: se obriga a ir a boca do caixa fazer a transferência. Ainda lembrava a senha do cartão do banco. Nos miúdos de tempo que restavam no entremeio das lides seguia lendo o Muitas  peles de Luiz Brás.

As lides do dia são muitas. Trabalho, cumprir prazos, tanto quanto possível se pôr claro – os deveres consomem o que podem do seu coraçãozinho que por fim já não recorda mais a senha, perdeu a chave do cofre, esqueceu como se faz a transferência de valores do virtual ao ato. Agora tudo se arrasta, confere tintim por tintinzinho do que ele tem, para ver se nada escapa, se tudo está como era pra ser. Já não vive sem um esforço, sem um cansaço.

Chega a noite. Aqui as lides já não são tantas. Contudo o seu coraçãozinho não descansa. Como poderá, à luz da lua, se pôr claro, como poderá dizer o que não se sabe dizer? Como ele fará pra estar sozinhozinho diante dela, quando todas as palavras viram serpentes, cheias de veneno, equívoco e contradi[c]ção [e aqui o c é somente uma pequena lembrança].

De repente ele lembra do Brás, que lembra Dinesen [Blixen], que faz lembrar que os corações do homem e da mulher são baús [adapto: cofres de guardados, de valores] fechados, onde cada um guarda a chave do outro. Xi, aqui, então, caberia somente um canto de desespero! Contudo, no entanto, de entremeio a tudo [inda haverá de se notar] vai o silêncio do antes, do muito antes de tudo, dos tempos onde tudo inda era inteiro e rotundo. Por fim, pouco resta a ele senão o recordar, o recolher ali das cercanias, das redondezas, as pequeninas migalhas [senhas] de redondo postas no silêncio de tudo, que hão de pô-lo tão plenamente sozinho em seu pequeno coração, que não mais haverá de se confundir, mas, isto sim, acabará por saber que lá no fim de tudo, tudo inda há de ser um.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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