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Brasileiro gosta de chope, afirmam pesquisas – por Reginaldo Pujol Filho
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Livro é caro no Brasil.
Peraí, guenta um pouquinho. Se acha que esse lugar comum aí em cima é o indício de um texto todo ele lugar comum, de novo reclamando do preço do livro, de novo dizendo que assim não dá, segura só mais um pouquinho, deixa eu terminar esse primeiro raciocínio. Assim ó: Livro é caro no Brasil, vírgula, tô começando a achar que isso é um mito.
Olha, talvez dê pra dizer, vá lá, que livro custe muito em língua portuguesa. Sei lá eu porque haveria esse fenômeno, quem sabe porque a gente gaste mais tinta e papel pra dizer em português as mesmas coisas que se diz por menos em inglês? Teoria furada, e aqueles palavrões em alemão que vão colando um substantivo no outro? Isso sim deve gastar papel.
Tá, mas não vamos gastar palavras aqui. O negócio é o seguinte: tô aqui em Portugal e, já que livro é caro no Brasil, como dizia o outro, fui pras livrarias daqui. E, epa: os livros tão emparelhando no preço. Quando não custando mais caro. Por exemplo, A máquina de fazer espanhóis do Valter Hugo Mãe sai aqui 15,30 a 17 euros, o que dá de 39 a 45 pilas brasileiros. Quanto custa no Brasil? Eu pesquisei: 39 mangos. Em algumas livrarias, até 36. E, detalhe, aqui o A máquina vem numa edição padrão da Alfaguara; no Brasil, em uma edição com o padrão da Cosac Naify, todo tranchã e bonitoso, que tinha tudo pra ser mais cara. Tem mais: fui atrás de um livro qualquer do Lobo Antunes (como se ele tivesse livro qualquer), o Conhecimento do inferno. Em terras portugas, dezessete com noventa. Euros. Converte e desembolsa 45,70 reais. Mas se quiser comprar aí no Brasil, já dei uma pesquisadinha pra ti: leva por 41,90. Tá vendo? Não? Então pega O ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Na Livraria do Manuel aqui em Lisboa vai de 13,60 a 16,90 euros (R$ 36 a 43). Na livraria do Alemão aí no Brasil, te digo: vai de R$36 a 46. Dei uma olhada ainda em exemplos aleatórios, como lançamentos de jovens poetas e prosadores em editoras independentes. Sai uns 10, 11 euros. Uns 25, 30 reais. Meu livro, só pra constar (sou jovem, tenho 31 anos, e publico pela Não Editora), sai R$ 28,00. Pra resumir: se compra livro por aqui, no geral, tirando sebo e promoção de pai pra filho, de 10 a 25 euros. Ou seja, de 25,50 até mais de 60 reais.
Quanto saiu o último livro comprado aí no Brasil?
Pois é, essa pesquisa de preço, essa minha estatística de boteco e seu resultado, isso é preocupante. Não, não é preocupante só pra mim que vim pra cá com a ideia de derrubar o avião na volta com excesso de bagagem em livros.
É preocupante por causa do mito aquele do livro caro no Brasil. É que se cai esse mito do preço do livro, essa peça caindo, derruba a próxima do dominó: aquela que diz que brasileiro não lê, porque livro é muito caro no Brasil.
Ou a gente reforma a frase pra “livro custa caro no Brasil, em Portugal idem (e na Argentina também não é essa barbada)” ou vamos ter que dizer que brasileiro não gosta mesmo de ler. Sem frescura, sem sofrimento. Como especulou um dia o meu amigo Polydoro, a gente vive num país cuja cultura se formou através do rádio, depois na TV, e antes disso não existia nem noção de cultura nacional, nem população alfabetizada pra criar o gosto do brasileiro pelo livro. Quer dizer, quando a maioria dos brasileiros teve acesso a bens e cultura, já existia plimplim no país. Pro bem e pro mal somos um país eletrônico, onde o livro talvez não seja tão caro assim. O brasileiro é que não gosta de ler.
Gosta mesmo é de chope.
Que chope é bem mais caro aí no Brasil do que aqui em Portugal. Tomo chope e cerveja aqui por dois e cinquenta, três reais, fácil. Chope é caro no Brasil. E nem por isso sai matéria todo mês afirmando que o chope não emplaca no Brasil por causa do preço, que isso é um problema nacional, que precisamos cuidar pra essa indústria não quebrar. Emplaca sim. Brasileiro gosta de chope.
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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.
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