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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Da pragmática 2 [em resposta a Leila], por Jaime Medeiros Jr

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Da pragmática 2 [em resposta a Leila], por Jaime Medeiros Jr


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Leila

a tua pergunta – não deveríamos voltar aos pais do pragmatismo, pragmatismo que era preocupado em promover o altruísmo, onde uma religião, por exemplo deveria ser avaliada por sua capacidade de nos fazer dispensar cuidados e atenções entre nós? – me dá a oportunidade de repensar o que estou a fazer.

Contudo comecei a pensar tudo isto a partir da leitura de Interpretação e superinterpretação [Eco, Rorty, Culler]. Seminário que me pareceu poder ser lido em pelo menos dois níveis. O primeiro, mais evidente, o do debate que discute todos os meandros da interpretação do texto literário. O segundo, onde ao falarmos da interpretação nessa nossa época que descrê da possibilidade de experimentarmos o mundo, senão como representação, senão como interpretação, poderíamos, talvez, também entendê-lo como um debate sobre as interpretações do real.

Deste modo me furtei de citar autores e de me responsabilizar pela exata reprodução de suas vozes, mas sim, acabei por os entender como tipos mais ou menos universais, aos quais denominei atitudes [atitude estética, atitude pragmática e uma atitude que crê na coerência interna do texto, a qual talvez pudéssemos denominar realista – em um determinado momento pensei denominar as duas primeiras atitudes como o artista e o político, mas creio que acabaríamos por reduzir o âmbito de ação das mesmas]. Portanto Leila, de certo modo, não estou a falar bem de pragmatismo, mas, isto sim, de pragmática.

Tentando por mais a claro, falamos de pragmatismo desde William James, talvez, mas de pragmática, que é a relação que possamos ter com uma prática [práxis], desde sempre. Aqui poderíamos, por exemplo, revisitar Maquiavel e o velho problema se os fins justificam os meios.

Em determinado ponto do debate a voz do pragmático fala, e nos diz que deveríamos deixar de pensar a nossa leitura como uma interpretação que busca se aproximar de uma intenção do texto. Pra ele o que vale não é a interpretação, mas sim o uso que dela faremos, esta interpretação está condicionada aos fins que tenciono dar a ela, de certa forma aqui interpretar é persuadir. O que me parece não ser mais que uma reedição de Trasímaco, que afirma, respondendo a Sócrates, que a Justiça não é outra coisa que não a conveniência do mais forte. Este tipo de atitude anti-essencialista, como a denomina o pragmático do nosso debate, parece, por fim, nos obrigar a disputa, ao enfrentamento. Estamos nos círculos do vale tudo, onde o princípio que devo seguir se pauta unicamente pela tentativa de atingir os meus objetivos.

Nisto abro Anne Cheng, quando fala na introdução de a História do pensamento chinês: a ausência de teorização à maneira grega e escolástica explica, sem dúvida, a tendência chinesa ao sincretismo. Não há verdade absoluta e eterna, mas dosagens. Daí a contradição não ser entendida como termos que se excluem, mas sim, como termos complementares … … … nesse  pensamento prevalece a reflexão menos sobre o conhecimento em si do que sobre sua relação com a ação. Isto nos afasta da guerra frontal, pois podemos entender que posições antagônicas se complementam.

Podemos observar que estes dois modos de conceber a pragmática se comportam também de modo diferente frente à tradição: de um lado estamos no campo da disputa, onde a minha tese se pretende exclusiva ela não se permite conviver com outras. Estamos sempre trabalhando no sentido de refundar o mundo, de reinventá-lo, apostamos todas as nossas fichas no novo, no ser original. Do outro lado não vivemos sob a óptica do conflito, mas sim nos inserimos no grande barco da tradição, atuando de modo complementar, aceitando as contradições que se refletem no pensamento de quem pensa uma realidade contraditória, aqui quem pensa é muito menos o eu e bem mais as relações entre os modos diferentes, mas complementares, de conceber a realidade. De um lado temos a ação corrosiva do lógos que nos leva ao nada. De outro temos o vazio que emerge da contradição, que compreende o caráter proteico da realidade e não pretende imobilizá-lo com uma qualquer trama teórica.

Após ter tentado me explicar um pouco melhor, tento agora responder mais objetivamente a tua pergunta. Sim creio que deveríamos viver de um modo mais altruísta; ter mais consideração pelo outro e fomentar o bem estar geral da humanidade. Por outro lado me parece que uma das principais dificuldades que temos para atingir este objetivo é fundarmos nossa prática sobre a matriz da disputa, do confronto, do partido e da guerra. Uma matriz de exclusão, que no mais das vezes aniquila qualquer outro possível a que pudéssemos demonstrarmos nosso altruísmo, nosso afeto. Portanto a questão me parece menos a de ser pragmáticos, que por fim, me parece todos somos, mas de qual pragmática adotaremos. Acho que seria bom juntarmos um coraçãozinho aos nossos arrazoados e experimentarmos um espaço de convívio.

Espero que possa ter respondido de algum modo a tua pergunta Leila. No mais te deixo um abraço e até a próxima

Jaime

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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