29
dez
11

Cartas à Palavraria, por Reginaldo Pujol Filho: o pão de queijo metafórico

.

O pão de queijo metafórico, por Reginaldo Pujol Filho

.

Então um dia eu falei por e-mail pra Carla que tava com saudade do pão de queijo (me senti um pouco imigrante de Varginha com essa). Ela me perguntou se não tinha aqui. E isso me lembrou de quando, bem gauchito orgulhoso barbaridade, perguntei pra Miranda (uma guria da Nova Zelândia que fez intercâmbio no meu colégio) se ela já tinha comido churrasco. Ela me respondeu que sim, e eu perguntei qual carne ela tinha gostado mais. Ela me perguntou Carne? Eu respondi Ué, sim, carne. Ela retrucou Mas churrasco não é desculpa pra tomar cerveja? O churrasco metafórico, o pão de queijo metafórico. Pois é, Carla, saudade do pão-de-queijo-desculpa-pra-ir-na-palavraria, era isso que eu tava dizendo.

Pois sigo investigando essa metáfora por aqui. Não, não dispensei a simpática Pó dos Livros, pelo contrário. Comprei lá presente de Natal pro filho de um amigo e também ganhei presente de lá.

Mas é essas coisas estar no exterior, ávido por descobertas. Pois assim fui parar na Ler Devagar. Já simpatizei com o nome por afinidade. E com a livraria pelo que a internet me dizia dela, o dono não queria vender best sellers e coisa assim. Ah, vamos ver qualé. Fomos lá eu e a Jajá, que ir na Ler Devagar é uma coisa até turisticamente bacana de fazer. Ela fica no LX Factory que é uma coisa daquelas que Porto Alegre vive prometendo fazer no Cais, no Navegantes, onde quer que haja coisa velha na cidade. Pois o LX é sim uma antiga área fabril, embaixo dum viaduto gigantesco, que não foi recuperada, restaurada, foi simplesmente tomada. Os espaços são cedidos a preço de bacalhau – banana é caro aqui – pra sujeitos com propostas legais pro espaço. Então tem restaurante, ateliers, lojas, empresas de arquitetura e a Ler Devagar.

Porque a Ler é um espaço legal. Aliás, parece ser um DOS lugares legais no momento em Lisboa. Um pé direito enormesíssimo, um bar de vinhos no meio da loja, instalações com bicicletas voadoras no teto, a tal máquina tipográfica jurássica que já estava lá (e todo mundo acha o máximo), é (infelizmente) permitido fumar – o que deixa o lugar intelecool e tem eventos, shows, lançamentos do Valter Hugo Mãe e vamo que vamo. Pois repararam que eu falei, falei, falei e não falei exatamente de livros. É que a Ler Devagar me parece um lugar legal. Que vende livros. Não exatamente livraria. Claro que tem coisas boas a preços bons (vi muitos livros de autores brasileiros por preços fantásticos, como o Voo da Madrugada do Sérgio Sant’Anna por 3 euros). Mas é até um tanto bagunçada a distribuição dos livros, fui duas vezes lá e ainda não entendi muito bem como achar. Como se os livros não fossem exatamente o esquema por ali. Isso dá até uma aura meio blasé. Uma coisa tipo Livros? Vender? Ah, sim, pois é, vendemos. Vejo mais pessoas lá sentadas tomando um vinho, fumando um cigarro, discutindo pós-estruturalismo em tempos líquidos, do que folheando um livro e perguntando o preço. Peraí, calma lá: claro que eu gosto, e mais do que isso, adoro livraria-buteco. Estamos no blogue da Palavraria, gente. Acho inclusive importante as livrarias terem esse tipo de estrutura, criarem essa aura, é um jeito de fortalecer o mundo e o imaginário ao redor do livro e da literatura. Fazer da livraria um lugar legal, sem carranca, sem cara de aula de literatura e leitura obrigatória pro vestibular. Um lugar onde estão os amigos, se conhece gente, acontecem coisas legais e se encontra livro e a turma que gosta de livro.

Mas, sei lá, parece que a Ler Devagar foi um pouco adiante, que, se precisar botar mais mesas pra bombar, até tiram uns livros dali. Chego a pensar que não seja um descarinho pelos livros. Pode ser é um sintoma. De que é tamanho o esforço necessário pra convencer as pessoas hoje em dia a irem numa livraria, que dá pra perder a medida. É tanto atrativo, tanta parafernália, tanto auê pra motivar a turma, que as pessoas acabam querendo só auê. A parafernália toma conta. Ainda gosto mais das livrarias com bar onde a gente pede o pão de queijo (metafórico ou não) e a Carla pergunta se eu li o último Gonçalo Tavares. Ou, na hora em que vou pagar a cerveja, o Carlos me pergunta se eu já li Francisco José Viegas (ainda não, Carlos). Livraria com bar. E não bar-point-hype com uns livros ao redor. Nunca tinha pensado nisso. Mas acabei de pensar. Esse é o pão de queijo da questão.

Ah, mas vale o passeio pra conhecer.

Livros comprados na Ler Devagar: O Voo da Madrugada (Sérgio Sant’Anna) e uma Revista LER


.

Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.

About these ads

0 Responses to “Cartas à Palavraria, por Reginaldo Pujol Filho: o pão de queijo metafórico”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


dezembro 2011
S T Q Q S S D
« nov   jan »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

Categorias

Blog Stats

  • 426,490 hits

Comunidade


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.362 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: