Arquivo de 11 janeiro, 2012

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Um pouco mais do mesmo, a crônica de Roberto Medina: Passagem

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Passagem, por Roberto Medina

 

Por mais que tentasse, eu não podia cruzar a parede, janela, ou mesmo, a porta. Há portas de todos os tipos. Grossas, de vidro, de madeira, de plástico, de sonho. Mas o que há depois da porta? E do lado daqui… há portas-grade. Muitos que tentaram passar pela porta, em especial, aquela porta, nunca encontravam a fechadura. Os mais brutos tentavam arrebentá-la. Implodi-la. E ela apenas sorria.

Fechava-se, desaparecia como quem cai no sono. Forçar uma porta é desrespeitar suas vísceras profundas.

Jogar-se na gigante porta é estorricar-se.

Pequenos e grandes homens já tentaram executar essa sonhada manobra.

Ultimamente tenho pensado, com eternidade, destruí-la.

Ela é de um forte matiz. Acaba se modificando, se repensando. O ombro direito ainda não se colou sob a carne. Nas últimas vezes o sangue esguichava potente. Pensei em desistir. Só que a raiva se reorganizava dentro de mim, e, como Davi, ia reunindo forças para desbancar o potente Golias.

A clavícula ficou para fora da pele, esta porcaria de pele, que só serve para esconder o nosso de dentro. Na menor das forças destas paredes do mundo, o de dentro se manifesta: ou na dor ou no sangue que verte. Tomei alguns cuidados para esconder de mim o que a mim pertence. Urrei de raiva, mas enfiei o osso para dentro.

Creio ter ficado desacordado por horas ou dias…

Não posso afirmar se foram dias, tudo aqui me enoja e fede como horas mortas e abandonadas. A febre vem de forma cavalar. Imagens ficam meio que misturadas com medos. Uma náusea sobe nas fronteiras da boca. E um universo surge em golfadas, alagando o chão, imiscuindo-se a alguns bichos que os pressinto. Outros me picam nas pernas, costas, peito e cabeça. Os pés, não os sinto com saber. Apenas me conduzem aonde pretendo me lançar. Se meus dedos estivessem nas mãos, juro pelo sagrado que arrancaria esta vida miúda.

Comer é uma atividade que não pertence mais aos frangalhos de corpo. Que bom se os dentes ainda estivessem no devido lugar.

O que é quebrar os dentes depois de ter esfacelado o nariz?

Dia desses, percebi uma quentura no rosto: um líquido viscoso e fétido escorria na face. Se a alma habita o corpo, tenho notado que não é a única dentro dele. Devaneio que alguns movimentos não pertencem a um corpo organizado, com tudo em seu lugar.

Por mais que eu force a sanidade, temo já ter um outro animal no cérebro.

A porta que forço agora possui pregos imensos, muitos perfuraram o meu tronco e parte das coxas. Meu sexo está vertendo sangue, acho que as pontas dos pregos atingiram os pulmões. Tenho a impressão que hoje vou atravessar a porta. Se o inchaço na cara não fosse tamanho, iria esboçar um sorriso; mentira, uma gargalhada infernal.

Rio do espaço ou de mim mesmo?

Tontura grande, noto, me atinge como nuvem espessa.

Aos poucos, sinto que os vermes abrem vorazmente buracos na pele. Os que moram no meu interior também querem mudar de recinto. Não tenho grandes pretensões. Mas vejo que a porta vai ficando distante deste olho. Quem sabe um dia o tempo a derrube ou que os seres que vivem aqui o façam por mim.

Vou tentar respirar mais devagar, pena que o ar que sai traz sangue e mucos… Preciso ser testemunha da queda desta porta.

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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