Arquivo de 15 janeiro, 2012

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Dicas de leitura, por Roberto Medina: Orhan Pamuk

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Orhan Pamuk: três livros – uma poética para o romance e para a leitura, por Roberto Medina

Há diferentes vias para adentrar no universo criativo de um escritor: os livros escritos, as leituras e as entrevistas.

Melhor ainda quando temos os três modos conjugados. Assim, aconteceu perceber a gênese dos romances de Orhan Pamuk – incansável leitor… e dos bons!

“A partir dos 22 anos, quando comecei a escrever romances, nunca fui capaz de separar minha vida e a dos meus romances. Acho que os livros que ainda escreverei serão pensados mais como entretenimento e mais importantes do que minha própria vida. Com isso, quero dizer que a pessoa deve olhar em frente para o momento de sua morte, que se deve resignar. Apesar disso, ainda parece que há muito tempo para usufruir.”

De sua terra turca, bebeu todos os autores do ocidente e refez o trajeto para casa: o oriente.

Istambul é o caminho percorrido e reconhecido, dos conflitos internos, das pessoas e suas vidas latentes, das suas interrogações políticas, bem como as existências, o autor de “Neve” aguçou todos os seus dotes artísticos, sensibilizando-se pelas artes plásticas até os 22 anos, momento em que se defronta com a necessidade de escrever, optando a partir daí pela escrita.

Antes de escrever os romances que pululam pelos quatro cantos do mundo, Pamuk iniciou-se na leitura. Na verdade, todo escritor e antes de tudo um leitor crítico, acredito que um leitor ideal. Aquele que observa a arquitetura dos clássicos, olha de soslaio seus contemporâneos.

Um escritor faz o trajeto leitor como qualquer outro ser normal: a primeira leitura é por puro prazer, depois virão as outras cirúrgicas, potentes, investigativas.

A leitura de desmontagem das belezas aparentes. O leitor é que sinta, disse Pessoa.

Com O romancista ingênuo e sentimental, Pamuk expõe um pensamento claro sobre os caminhos e descaminhos de sua formação, assim como os autores que lhe marcaram desde sempre, como Tolstói, Proust, Mann, Woolf entres outros de igual calibre. Para ele, vale o retrato da natureza humana: “o centro de um romance é uma profunda opinião ou insight sobre a vida, um ponto de mistério, real ou imaginado, profundamente entranhado.” Em momento algum, descura do estudo técnico e teórico que envolve a arte literária, pois discute as questões arguidas por E. M. Forster (Aspectos do Romance) e por Lukcás (A teoria do Romance): pontos concordantes e discordantes. Percebe-se claramente que se houver uma musa, a dele é muda: trabalha com esforço e afinco. Planeja seus romances, estuda planos, diálogos, objetos, palavras. Pretende-se como um escritor desafiador.

“Quando olho a minha vida passada da idade que estou, vejo uma pessoa que tem trabalhado longas horas na mesa com alegria e miséria. Escrevo meus livros com carinho, paciência e boas intenções, crendo em cada um deles. Sucesso, fama, alegria profissional… coisas que nunca vieram para mim com facilidade.”

Quando Orhan Pamuk, na cerimônia de entrega do prêmio Nobel de Literatura, em 2006, discursa, reforça sua trajetória de leitura, a experiência veio dos recantos da biblioteca de seu pai, como na telemaquia, o resgate pela memória transformada em texto não alivia fantasmas, mas os acomoda.

O caminho de formação está no livro A maleta de meu pai. Leio na figura do pai outros pais e mães – do porte literário, obviamente.

“Para mim, um dia bom é como qualquer outro, quando escrevo uma página bem. Exceto pelas horas que gasto escrevendo, a vida parece ser falha, deficiente e sem sentido.”

“Escrevo livros que eu mesmo gostaria de ler. E às vezes me apego a isso para acreditar que o mundo compartilha dos meus sentimentos.”

Ampliando suas formas de expressão e pensar, Pamuk reúne ensaios e conto na obra Outras cores,neste apanhado vemos um autor que mantém o propósito de dialogar com o leitor de maneira singular, descartando trejeitos acadêmicos, apesar de ser professor na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Fornece-nos um panorama de reminiscências íntimas, entrevista reveladora do pensamento percorrido na concepção de um romance.

Em uma entrevista para uma revista brasileira, Orahn Pamuk fala sobre o papel da literatura, respondendo que é “Comunicação. Olhar para o coração humano. Ver humanidade em todas as culturas, em todas as situações, em todas as classes, cores, raças, sexos. Ver a vida claramente. Para me perguntar a mim mesmo coisas como “por que vivemos, quais são nossos valores na vida, quais são os valores que devemos respeitar, que tipo de vida devemos viver”. Questões que as pessoas esperam da religião, da filosofia, eu espero de romances, de literatura.”

Lança luzes sobre a condição de escritor, “Ser um escritor é como ser um corredor de maratonas. É preciso ter força. A força de um romancista não é apenas sua criatividade, mas sua persistência e determinação. Há dias bons e dias ruins, você precisa seguir como um trem.”

Secção especial sobre a literatura brasileira, Pamuk ressalta: “Eu vinha de um país em que não havia traduções e fiquei com inveja. Publicaram também Machado de Assis nos Estados Unidos. Ele é muito criativo, vanguardista e pós-moderno. Meu editor inglês também me apresentou a Clarice Lispector. Ele me deu seus livros. Essa foi minha iniciação. Jorge Amado, com seus livros realistas, também é popular na Turquia.”

Pequena biografia:

Orhan Pamuk nasceu em 1952, em Istambul. Principal romancista turco da atualidade, já foi traduzido para mais de quarenta idiomas e ganhou prêmio Nobel de literatura em 2006. Publicou pela Companhia das Letras O castelo branco, Istambul, O livro negro, A maleta do meu pai, Meu nome é vermelho, O museu da inocência, Neve, O romancista ingênuo e sentimental e Outras cores.
 

Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC – Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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