Arquivo de 18 janeiro, 2012

18
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Eros, filho de aporia

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Eros, filho de aporia, por Jaime Medeiros Jr.

Estou a ler novamente o Banquete de Platão. Daí me muni da vontade de ler um tanto mais a sério. Busquei comentários. Estou a lê-los concomitantemente. Se nisto vier a descobrir algum remansozinho em que me pôr por algum tempo, já estarei bem contente por ter, mesmo que circunstancialmente, ancorado os apelos distraídos do meu coração. Como não se pôr a deriva neste grande e vago mar de saudadesejo que se há de navegar?

A edição da Editora da Universidade Federal do Pará, 2011; traz um alentado estudo introdutório, onde se comentam várias das reentrâncias do texto. Lembra-se, entre outras coisas, o mito platônico do nascimento de Eros, filho do casal de opostos, penia ou penúria e poros ou abundância. Eros, aqui, não é outro senão a consequência harmônica desta contradição.

Pobre como a mãe, mas cheio de engenhos e de coragem – caracteres herdados do pai –  para se pôr a busca do que é belo. Sempre cobiçoso da abundância, mas condenado a estar eternamente em penúria, em a-poria. Um pouco mais adiante, hei ainda de aprender, junto com Sócrates, de Diotima de Mantineia, sábia sacerdotisa, que bem mais como um novo avatar de Penia, despe Eros da sua condição divina e dá à luz a sua verdadeira natureza. Eros é um daimon.

O que é um daimon? Um ser de um tipo intermédio entre homens e deuses. Pobre, pois lhe faltam todos os recursos específicos da natureza divina. Mas, mesmo assim, devoto servidor do belo, Afrodite, a quem há de cobiçar por toda sua vida.

O próximo passo, diriam alguns, seria empobrecer ainda mais a Eros e igualá-lo a Sócrates, segundo outros talvez elevar Sócrates a condição de Eros. Aqui temos a filosofia se igualando a erótica, onde Sócrates é o mesmo que Eros e a filosofia o mesmo que a erótica. Eros nasce de sua mãe Penia, que também pode se traduzir por a-poria – a que não tem recursos – o que o obriga a uma cobiça, a um desejo constante do divino. O que, ao fim e ao cabo, não livre de um certo atrevimento, pudéssemos arriscar dizer, que a filosofia é filha da penúria, da aporia.

Xiii! Parece que perdi meus óculos, e sem aquele intermédio de que se fazem as lentes já não consigo reconhecer muitos destes caminhos por entre estas letras aqui de perto? Bah!!! Já quase não consigo enxergar!!! Mas procuremos um pouco mais, aqui por trás deste outro livro. Ufa, aqui está, encontrei!!! E agora já não agonizo, já não derivo e já posso descansar um pouco aqui nesta abundância de caminhos que reconheço neste único texto frente aos olhos, pois que todos me foram entregues por aquele único intermédio de que se faz as lentes.

Retomemos. Portanto parece ser só por meio desta coragem com que determino a atividade, os apelos do coração deste nosso Eros, pois filho de poros – que hão de se originar deste sentir falta, deste cobiçar, pois também filho de aporia – que acabarei ainda por focar este belo a que quero chegar. Isto, por certo, nada garante, mas a depender da fidelidade com que me puser a amar e de uma possível circunstancial disposição para a generosidade que os deuses possam comportar, talvez ainda venha a topar com algumas pistas – opiniões corretas – que possam, por fim, levar ao verdadeiro endereço do belo que estou a almejar.

Por hoje, aqui ficamos. Certamente, ainda nos veremos em outro ponto do curso desta nossa jornada.

Um ab e até já

Jaime

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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