Arquivo de 26 janeiro, 2012

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Aconteceu na Palavraria, nesta quarta, 25/01, bate-papo com Mario Augusto Jakobskind

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Aconteceu na Palavraria, nesta quarta, 25, bate-papo com o jornalista Mário Augusto Jakobskind. Fotos do Evento.

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A crônica de Ademir Furtado: Manias de riqueza

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Manias de riqueza, por Ademir Furtado

 

Na virada do ano, todo mundo inventa que vai melhorar a vida, se dedicar a novos projetos, mudar um pouco de rumo. As pessoas mais sensatas dimensionam os novos propósitos com base numa revisão do ano anterior, que serve para avaliar anseios e capacidades, e assim se resguardarem de frustrações desnecessárias.  Foi o que eu fiz no final de 2011, quando comecei a rabiscar as minhas metas para os próximos doze meses. E eis que me vi numa tremenda confusão, causada pela melhor notícia de todos os tempos: o Brasil despontou como potência econômica, à frente, inclusive, da Inglaterra. É uma mudança dramática para quem vivia acostumado a planos de pobre, tais como economizar o salário pra comprar um carrinho usado, financiado em trinta e seis vezes; passar um réveillon em Florianópolis, numa casa alugada com a turma de amigos; quem sabe até guardar o décimo terceiro de uma década para realizar um sonhado intercâmbio cultural. De repente, tudo mudou, somos um país rico, com promessas de termos um padrão de vida europeu em menos de vinte anos. Logo agora que um dos objetivos que tracei para este ano era justamente visitar a Inglaterra, fazer um novo contato com a civilização. Na verdade, o intuito de viajar não sofreu alteração. O que tem me inquietado são algumas dúvidas quanto ao meu novo status. Será que os ingleses vão me receber com aquele deslumbramento típico com que os nativos de países pobres bajulam os habitantes de nações abastadas? Precisarei melhorar meu inglês, ou posso chegar lá com aquela convicção de que o português é a língua natural dos seres humanos e, portanto, entendido por todos os falantes do planeta? Sem falar na necessidade de aprender a me comportar como se vivesse no primeiro mundo, coisa que os argentinos já nascem sabendo.

 

O Brasil (quem diria?) virou notícia mundo afora, e não pelas jogadas fenomenais dos grandes astros de futebol, nem pelas bundas mulatas em desfile nas praias cariocas, muito menos pelo turismo sexual dos europeus no nordeste, e sim porque se tornou a terra prometida para muita gente, inclusive haitianos e bolivianos. Ainda não se sabe de nenhuma inglesa que tenha desistido da universidade de Oxford ou Cambridge para tentar a sorte como doméstica na Barra da Tijuca e no Morumbi, ou correr atrás de uma gravidez brasileira para conseguir cidadania, mas já temos casos comprovados de executivos americanos que deixaram para trás a incerteza enervante de Wall Street para se instalar no sossego promissor de São Paulo. E desceram em Cumbica com tudo prontinho, sala montada na Avenida Paulista, documentação em ordem. Nem precisaram se esgueirar pelos becos sinuosos da fronteira boliviana para chegar até aqui.

 

Mas, o mundo é cheio de gente maldosa, e a inveja é uma das muitas chagas que resistem a qualquer evidência de progresso. Tem gente por aí dizendo que essa riqueza é apenas pra inglês ver, pois foi uma instituição britânica que anunciou a boa nova. E o empenho em destruir as conquistas alheias é tão grande, que alguns agourentos foram até buscar dados estatísticos para justificar a falta de entusiasmo. Um dos argumentos que os negativistas apresentaram é de que essa camada da população que o IBGE chama de classe C realmente está ganhando mais, mas não conseguiu acesso àqueles benefícios que caracterizam a ascensão social, tais como curso superior, assistência médica qualificada, e até uma viagem ao exterior de vez em quando. Eles espalharam boatos de que os emergentes da Era Lula ganharam maior poder de consumo, e vão poder trocar a tevê de 14 polegadas por uma de 42, digital, tela LCD, mas vão continuar consultando pelo SUS, e o divertimento preferido continuará sendo a novela das 8, que aliás começa às 9, o fantástico mundo da informação inútil, e a mesma bestialidade boçal brasileira, que a cada começo de ano estupra mentes vazias e sonolentas de milhões de brasileiros.

 

Mas a vida clama por otimismos, e como diz a sabedoria popular, sorte tem quem acredita nela. Por isso, não convém estragar a euforia de um começo de ano com questões complicadas de estatísticas e avaliações morais. Eu apenas gostaria de pedir aos nossos governantes que, para este ano que começou há quase um mês, procurem entender a diferença que existe entre ser rico, e ser um pobre com dinheiro no bolso. Talvez essa não seja uma questão importante para as faculdades de Economia, mas com certeza é uma preocupação muito grande para aquelas pessoas que, mesmo que tenham três neurônios ativos, gostam de ligar a televisão no horário nobre.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

 

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