25
fev
12

Cartas à Palavraria, por Reginaldo Pujol Filho: abaixo os smurfs

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Abaixo os Smurfs, por Reginaldo Pujol Filho

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O lado bom de mandar cartas é que dá pra falar de coisas que aconteceram há mais tempo. Não o hoje, o nesse minuto. Em cartas, pelo menos do que eu lembro, se falava da semana, do mês passado, do ano passado. Pues, feita essa brilhante reflexão missivista, começo dizendo que existem muitos culpados por eu estar nesse momento em Portugal. Em primeiro lugar, empatados, claro, eu e a Jajá, que inventamos e abraçamos essa história. Mas, entre tantos que me empurraram pra cá, que me motivaram, é claro que aparece a Carla. Como não? Veja só, foi a Carla que, no longínquo ano de dois mil e internet discada, recomendou pra minha amiga Ana Marson que me desse de amigo secreto o livro Senhor Henri, do Gonçalo M. Tavares. Dizem, as duas, que a Carla teria dito que achava a minha cara. Não sei se pelas quantidades de absinto que o personagem bebe, mas, se não foi por isso, até hoje acho esse um dos melhores elogios que já recebi. Porque, pelo menos como leitor, sim, o Senhor Henri era e é a minha cara. Fiquei fissurado naquele livrinho por muito tempo e, quando vi, já tinha comprado Senhor Valéry, Senhor Brecht, tudo o que saía do Gonçalo M. Tavares e, bem, virei um fã incondicional do sujeito e dos seus livros a ponto de estar aqui, em Lisboa, a dois dias de começar a ter aulas com ele. Então, me parece lógico, que, se a Carla (via Ana), inoculou esse vírus em mim, tem sua parcela de culpa por minha estada lisboeta. No que lhe sou muito grato, Carla.

Mas, se há males que vem pro bem, há bens que vem pro mal?

É que, Carla, por causa desse vício de leitura que tu me ajudou e estimulou a desenvolver, como qualquer viciado hard, acabo fazendo bobagens. Coisas feias. Não, ainda não vendi controle remoto pra comprar livro – o que não seria má ideia se não passasse Simpsons na TV. Mas, um tempinho atrás, descobri por esses lados de cá do oceano que o Gonçalo não ia lançar um, mas dois livros. Numa tacada só. Short Movies, pela Caminho e Canções Mexicanas, pela Relógio d’Água. Me cocei todo. Fui na Pó dos Livros na semana prevista pro lançamento e não tinha ainda. Ia chegar. Fui em outras livrarias e nada. Pesquisei e descobri. Tinha acabado de chegar naquele sábado. Na FNAC.

Pois, senhores e senhoras, com Pó dos Livros, com Ler Devagar, com muitas outras livrarias bacanas a descobrir por aqui, fui parar num shopping, numa FNAC pra saciar minha vontade de comprar os livros no dia em que eles chegassem na loja. Numa FNAC. Nem precisa apresentar essa livraria (entre-aspas) pra ninguém aqui. Todo mundo sabe como é. É um BIG que, por acaso, em vez de costela minga, tá vendendo Gonçalo Tavares. E ainda era época próxima de Natal, com promoções mil não só de livros, mas de TV LCD, notebook, fone de ouvido. A vontade era de entrar, catar os Gonçalos e sair. Mas, pombas, já que tava no inferno, tinha que abraçar o diabo. Pelo menos, os caras têm muitos descontos, então é um pouco difícil de resistir a folhear uns livros em promoção, com preços convidativos, quem sabe fazer uma descoberta? Ah, tente fazer isso com umas quatro TVs divulgando o DVD dos Smurfs. Descobri que é impossível prestar atenção na primeira página de qualquer livro com a trilha sonora do menu do DVD dos Smurfs rolando em looping eterno. E o seguinte: não sei por que, mas essas TVs estavam estrategicamente posicionadas do lado das prateleiras de promoção. Sei lá, talvez fosse pra entrar na mente dos pais que procuravam livros, um compre-batom, compre-batom, compre-batom. Não sei. Enlouquecedor. Acabei descobrindo que eles até tem uma sala anti-smurf, uma sala de leitura, mas parece que o negócio dos caras não é mesmo ver gente lendo. É que a tal sala, que eu olhei rapidinho, era um meio termo entre uma sala de espera de dentista, e um fumódromo. Asséptico, impessoal, uns bancos ao longo da parede, nenhum sex ou read appeal. E aí que eu pensei: como esse tipo de coisa faz mal pro mundo dos livros, eu acho. Pensa bem:

Se a única vantagem que a FNAC e outras hiperultragigamegastore têm é preços imbatíveis, e, se isso a gente encontra na internet também, no conforto do lar-doce-lar e sem música dos Smurfs (a não ser que o cara curta a trilha dos Smurfs e ouça no computador), mas se é só isso que eles oferecem a nós, leitores, me pergunto, por que é que nós, leitores, vamos levantar a bunda da cadeira e ir tomar ombrada dos compradores de câmera digital, depilador elétrico e leite longa vida (entrou por engano na livraria achando que era o hipermercado)? Me parece que, quando se cria essa imagem sem graça, corrida, hora-do-rush do lugar onde se compra livro, ninguém vai ter mais prazer de ir nesse lugar. Praticidade por praticidade, fica-se em casa. E cria-se o hábito de comprar em casa. E não se entra mais em livrarias de bairro, como a Palavraria, a Pó dos Livros, a Bamboletras e deixa acontecer coisas como, além do livro que se quer comprar, folhear um desconhecido e descobrir um autor por acaso e conversar com um livreiro-de-carteirinha, ou um outro leitor mesmo, sobre esses e outros livros. Não. Fica-se em casa, digita na comparação de preços o livro, compra exatamente o livro e deixa a livraria da esquina ser comprada pela Igreja Universal.

Que que eu vou dizer?

Se o Gonçalo lançar mais um livro, espero um diazinho a mais pra comprar. Ou, abaixo os Smurfs.

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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.

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