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jun
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A crônica de Gabriela Silva: Junho, mês dos namorados

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Junho, mês dos namorados, por Gabriela Silva

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Então junho aqui no Brasil é o mês dos namorados, no resto do mundo é fevereiro.  Pois, considerei em falar sobre isso. Lembro-me que a data de fevereiro é 14, dedicada a São Valentim, que realizava casamentos às escondidas, favorecendo assim os amores ditos proibidos. Aqui a data é mais comercial do que propriamente em louvor a um santo, pois Santo Antônio (um sujeito muito querido de todos) tem como data oficial no calendário religioso o dia 13 de junho. Há algumas simpatias simpáticas que prometem aos apaixonados a plena realização de seus desejos amorosos quando praticadas na madrugada deste precioso dia.

Pensando nisso, lembrei-me de algumas personagens da literatura: Jane Eyre e Elizabeth Bennet. Ambas vivem amores quase impossíveis, se não impossíveis, no mínimo turbulentos. Jane Eyre ( o romance tem o mesmo nome),  engendrada por Charlotte Brontë, é uma criatura deveras interessante, permitam-me contar que é minha personagem predileta na galeria do gênero  feminino da literatura ocidental. Ela é uma menina que começa a narrativa sendo muito infeliz, torna-se professora e vai trabalhar para uma família rica e aí… bem… aí… ela conhece Mr.  Edward Rochester, um sujeito mesmo muito sinistro, mas que tem seu coração envolvido de imediato pela moça culta e tímida que é professora de sua pupila . Mas ele tem um segredo (quem não tem, não é mesmo?): num cômodo da casa ele mantem distante do mundo sua primeira mulher, que tem sérios problemas mentais. Após diversas peripécias Jane Eyre tem seu sonho de casar com Rochester destruído, afasta-se e, depois de muito tempo, atendendo ao chamado de seu coração, retorna para seu par que está cego e desnorteado.  Eles ficam juntos, e nós leitores felizes com esse final. Agora coloquemos sob a perspectiva de São Valentim, se ela houvesse se valido do santo e casado na surdina, ninguém teria desmascarado Rochester na hora do casamento.  Eles viveriam com a louca do sótão incendiando a casa, mas todo mundo fingiria não ver e aos domingos  todos almoçariam felizes ao ar livre no campo.

Nossa segunda moça em questão é Elizabeth Bennet, personagem protagonista do romance Orgulho e preconceito, de Jane Austen, na narrativa ela é uma das moças “casadouras” da família Bennet, já quase na idade de ficar “para titia”.  Então, ela conhece Mr. Darcy, rico, bonito, de excelente caráter  e demasiado preconceituoso com a condição financeira de Lizzie e de suas irmãs. Ela por sua vez é orgulhosa ao extremo, afirmando sempre que não se casaria por conveniência, mas somente por amor. Amor despertado por Darcy. Após armadilhas, suspeitas, desencontros e outras tantas coisinhas que um romance tem que ter, Darcy finalmente pede-a em casamento e ela…nega-lhe! Mas, como o amor tudo vence…ela reconhece o que está tolamente perdendo e eles ficam juntos. Nós, leitores, mais uma vez, suspiramos e fechamos o livro contentes. E Santo Antônio? você se pergunta ai lendo meu texto…bem…se ela houvesse na madrugada do dia 13 pedido ao santo que lhe mostrasse o homem que seria seu marido, e então Mr. Darcy aparecesse, ela saberia de imediato que era ele! E pronto, tínhamos de largada um belo casório!

Porém… como na vida, na literatura não é nada fácil. E não é fácil amar, conviver ou tentar descobrir o que torna alguém tão especial para nós. Se elas houvessem, assim como nas minhas sugestões recorrido aos santos conhecidos por suas caridades para com os enamorados, talvez fossem pessoas infelizes, pois não teriam descoberto da maneira mais íntima, como descobriram o porquê do amor e da grandeza do sentimento que as motivaram. E pior ainda: não teríamos essas fabulosas fábulas para deleitar nossos ávidos corações e expectantes cérebros.

O que vale é que amar está nas linhas desses grandes romances assim como na vida. E que assim como essas duas personagens precisamos vez por outra arriscar e descobrir o que nos espera no dia seguinte do resto de nossas vidas.

Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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