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jul
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Da inocência do pombo ou Das trocas

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Da inocência do pombo ou Das trocas, por Jaime Medeiros Júnior

Todorov parece nos demonstrar quanto Colombo foi incapaz de se libertar do sistema de valores Europeu ao cambiar com os ameríndios. Talvez disto tenham advindo as suas observações contraditórias, quanto aos homens cujas terras acabara de descobrir, que para ele eram ora covardes, ora valorosos, ora tolos e generosos [afinal trocavam ouro por miçangas], ora maus e mesquinhos. A Europa fundada nos valores da caridade e da humildade cristãs parece ter optado pela penúria, pela pobreza que reduz o universal ao relativo do seu sistema de trocas. Pois como não haveria de se admitir que ouro vale bem mais que miçangas?

Como saber agora da dor de quem sente? Os manuais de semiologia orientam inspecionar, questionar e palpar. Devendo-se também, se necessário e possível, usar de outros recursos que não só o exame clínico. A criança ainda não chegou aos cinco anos, e portanto ainda não domina totalmente o poder da palavra, ainda não virou gente grande, e, por isso, ainda não sabe mentir. Os manuais especificam as perguntas a se fazer: perguntas referentes a quando e a quanto tempo e se a dor é como uma agulhada, se queima, se torce, ou se tão-somente dói. Depois palpa-se e procura-se na face algum sinal de dor. Mas nem tudo se reduz a um sistema, e há ainda algo mais nas palavras, que vai mais no modo com que se diz e se escuta a dor de quem sente. E deste modo já não se consegue separar bem o que é ouro do que são miçangas.

Por fim, como conviver sem compreender o ouro que trocamos entre nós? Conviver com o outro que nos oferece tudo que nos é capaz de ofertar. Amizade. Ou algo que se finge de, mas que morde sempre que se vira as costas. O triste, quando isto acontece, é o quão insuperável é toda essa situação, nem a inocência é capaz de redimir. Pois quando não compreendo o real valor das miçangas que dou e espero ouro em troca, já não é comércio o que faço, senão a usurpação cínica [coitados dos cães que nada tem que ver com isso] do outro. Mas toda verdade ainda há de estar no jeito de se dizer, algo meio como a criança, que ainda não nos sabe mentir.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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