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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das muitas vozes do Espírito [outro labirinto]

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Das muitas vozes do Espírito [outro labirinto], por Jaime Medeiros Júnior

Faz muito não que tudo começou. O início, uma conversa com o amigo Heron, que me conta ter andado atrás de um texto bíblico, a modo de rememorá-lo. Encontrou. Pô-se a lê-lo. Mas qual a surpresa!? O texto já não coincidia com aquele que ecoava em sua memória.

Esta semana, dia do amigo, aniversário de minha prima, fui a Santa Maria. Resolvi pôr na bagagem um exemplar da TEB [tradução ecumênica da Bíblia, que segue o modelo da TOB francesa]. O exemplar em capa dura, tamanho de bolso, estava à mão e parecia ser mais fácil convidá-lo a adentrar a bolsa que eu estava a preparar para a viagem.

A viagem: algum cansaço a pôr ainda mais peso no corpo da gente. Sono que se recusava, assim tão facilmente, a resolver-se. Chego a Santa Maria. Conversa vai, conversa vem. Felicito minha prima. Entrego o presente. Em algum momento tento confundir o cansaço, descansando. Fui parcialmente bem sucedido. Durmo, não muito, depois acordo. Abro a bagagem. Topo com a TEB a um canto. Abro e caio no salmo 19. Leio os versículos de 2 a 5, que dizem:

2- Os céus narram a glória de Deus, o firmamento proclama a obra de suas mãos.

3- o dia transmite a mensagem ao dia, e a noite a faz conhecer à noite.

4- Não é um discurso, não há palavras, não se lhes ouve a voz.

5- sua harmonia se estende sobre toda a terra, e sua linguagem até as extremidades do mundo.

Tomo um susto, pois, apesar de simpático, o texto parecia participar mais de nosso espírito moderno. Aqui os céus narram, o dia transmite a mensagem [um salmo apropriado a era da informação?], e, por fim, se estende a sua linguagem até as extremidades do mundo. De outra parte, algo em mim também desconfiava de tudo aquilo. Pois aquela não era voz que estava acostumado a escutar na palavra do senhor.

Aqui adianto as minhas escusas a todos os sábios tradutores. Não escolhi falar a partir da perspectiva do especialista, pois não o sou, mas sim, a partir do que me suscitam enquanto leitor desarmado, mas não desalmado, de grandes recursos.

Abro novamente ao acaso a TEB. Caio em Gálatas 3 [versículos 1 e 3]. Leio Paulo a admoestar:

1 Ó gálatas estúpidos, quem os seduziu; depois que, aos vossos olhos, foi exposto Jesus Cristo crucificado?

3- Sois a tal ponto estúpidos? Vós que a princípio começastes pelo espírito será agora a carne que vos leva a perfeição?

Que susto grande! Era a primeira vez que lia no texto bíblico a palavra estúpido, que a mim parece tão inapropriada à admoestação de quem quer que seja, e sim, mais própria ao xingamento.

Resolvo então consultar as bíblias da casa. A de minha avó que hoje encontra-se aos cuidados de minha tia e a que minha prima recém comprara, em letras grandes. Ambas publicadas pela Sociedade Bíblica do Brasil e que contemplam a mesma tradução de João Ferreira de Almeida na sua versão Revista e Atualizada, versão que lia na igreja metodista, nos tempos de minha fé adolescente e militante, que nos apresenta o Salmo 19: 1-4:

1- Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos

2- Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite

3- Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se houve nenhum som;

4- No entanto, por toda terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo.

Quando chego em Porto Alegre busco a bíblia que ganhei de meu avô. Uma João Ferreira de Almeida Revista e Corrigida, na grafia simplificada, onde se trata o mesmo texto desta forma:

1- Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos

2- Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.

3- Sem linguagem, sem fala, ouvem-se suas vozes

4- Em toda a extensão da terra, e suas palavras até o fim do mundo

Conheci também mais tarde, à época do segundo grau a Bíblia de Jerusalém, era o tempo de uma igreja Metodista que ainda participava do movimento ecumênico das igrejas cristãs. Quando acabei o segundo grau no Colégio Centenário de Santa Maria [colégio metodista] ganhei, bem como todos os meus colegas, o novo testamento, exemplar em capa dura, desta edição da bíblia fruto das pesquisas da École biblique de Jérusalem, que congrega pesquisadores que não se filiam a uma denominação específica. Bíblia que no Brasil era editada pelas Paulinas [hoje pela Paulus, editoras católicas], mas que em alguns países é editada por editoras protestantes. Onde assim se nos apresenta o mesmo salmo:

2-Os Céus contam a glória de Deus,

e o firmamento proclama a obra de suas mãos

3-O dia entrega a mensagem a outro dia

e a noite a faz conhecer a outra noite

 

4-Não há termos, não há palavras,

nenhuma voz que deles se ouçad,

5-e por toda a terra sua linha aparece

e até os confins do mundo sua linguagem

Edição que se acompanha de notas como aquela d aposta ao versículo 4: as versões compreendem o contrário: “dos quais não se ouve o som”, mas a sequência faz alusão ao tema assírio-babilônico dos astros, silenciosa “escritura dos céus”.

Quando fiz a minha profissão de fé na igreja metodista com a idade de treze anos, recebi um novo testamento da Bíblia na linguagem de hoje. Uma das fortes tendências de tradução do texto bíblico desde então, onde assim encontramos os primeiros versículos do salmo 19:

1- Os céus falam da glória de Deus e anunciam o que ele tem feito!

2- Um dia fala dessa Glória ao dia seguinte, e uma noite repete isso à outra noite.

3- Não há discurso nem palavras, e não se ouve nenhum som.

4- No entanto a voz do céu se espalha pelo mundo inteiro, e as suas palavras alcançam a terra toda.

Resolvi, por fim, sair em busca de alguma outra tradução. Encontrei a Bíblia Sagrada Edição Pastoral [Paulinas], que faz assim o Salmo 19, a qual me pareceu algo singela e simpática nas suas escolhas para a tradução do mesmo salmo:

2- O céu manifesta a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos,

3- o dia passa a mensagem a outro dia, a noite sussurra para a outra noite

4- Sem fala e sem palavras, sem que sua voz seja ouvida,

5- a toda terra chega o seu eco, aos confins do mundo a sua linguagem

Terminada essa pequena viagem pelas traduções do Salmo 19, faço então percurso semelhante pelas traduções dos versículos 1 e 3 de Gálatas 3. A maioria, em discordância com a TEB, preferem o termo insensatos, ao invés de estúpidos. Já A Bíblia na linguagem de hoje o primeiro versículo traz tolos e o terceiro sem juízo ao invés dos estúpidos escolhidos pela TEB.

Néscios, como muitas vezes nos tornamos, certamente poderíamos prolongar indefinidamente a nossa busca. Empilhando aqui ainda outras tantas traduções, tanto católicas quanto protestantes. Mas acreditamos já ter demonstrado suficientemente a profusão labiríntica das traduções do texto bíblico no Brasil.

Retomando. Na mesma viagem a Santa Maria releio Borges [Borges Oral – o Livro] que comenta, referindo-se ao espirituoso Shaw: uma vez perguntaram a Bernard Shaw se ele acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia. Ele respondeu: “todo livro que vale a pena reler foi escrito pelo Espírito”.

Talvez, no entanto, você possa crer que o Espírito escreva apenas em Hebraico, Grego ou talvez em Sânscrito ou Pali. Mas talvez possamos nos abrir a uma outra possibilidade, a de que o único livro o qual devamos realmente reler seja aquele em que não há termos, não há palavras e que por toda a terra a sua linha aparece, e até os confins do mundo sua linguagem. Onde estará este livro? Senão em todo o lugar onde o Espírito está. E onde ele haveria de não estar? Isto talvez confira muito mais importância a quem lê, que para encontrar o Espírito no texto-fonte, certamente há também de precisar ler com Espírito. E, por fim, incidentalmente, me ocorre, ler com espírito talvez seja, fundamentalmente, reler.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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