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A crônica de Guto Piccinini: Pequenos cantos que insistem

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Pequenos cantos que insistem, por Guto Piccinini

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Há certos caminhos que serão sempre referenciados como do campo da normalidade. Tenho apreço por aqueles que saem um pouco desta rotina do normal, atravessando nossos corpos em sua diferença e busca por afeto. Acontecimentos cotidianos que vêm tensionar com modos hegemônicos de olhar, num processo contínuo de reconfiguração das categorias de classificação e análise. Ultimamente tenho estado cada vez mais atento a estes pequenos movimentos que invadem o espaço urbano, vagarosos e insistentes frente a isto que denominamos Estado. Recordo algumas imagens trazidas por um amigo em sua defesa de dissertação alguns anos atrás que remetem a este movimento. Sutis encontros entre um apelo de vida e a crueza da urbe. Das imagens, uma que me toca particularmente: um tronco de árvore que envolve um portão de ferro, destes muitos que nos protegem. Pela rua, nas saídas dos esgotos, por entre fendas descuidadamente deixadas pelo tempo, produzem-se pequenos cantos que resistem, pequenos cantos que com alguma insistência carregam uma potência de vida, de novos caminhos e, inevitavelmente, novas normas.

Neste (des)caminho da diferença, insiste do mesmo modo a divisa dos costumes e dos princípios. Linhas que separam os certos dos errados. Nosso problema é um tanto pequeno se tomamos a problemática do humano neste campo de análise moral, e estamos a uma certa distância de resumirmos a vida dentro de um conjunto de regras que regulam e indicam caminhos prontos. A vida transcende a lógica, e de longe compactua com um projeto moderno de descoberta de uma “grande verdade” sobre si mesma. Salvo os clichês, estamos no campo da ética, das questões renitentes e da importância que assim permaneçam. Atenção redobrada, portanto, aos acontecimentos micropolíticos cujos efeitos possuem uma força de torque, a produzir novos mundos e novas vidas. Acontecimentos que resistem, mas que movimentam a pesada máquina do Estado em suas contra-resistências.

O jornal grita: “Condenadas por tumulto da ordem pública!”; “Vândalos passarão dois anos em prisão”. O jornal grita, em sua pseudo neutralidade diante da perturbadora cena: “The horror… the horror…”. A bola da vez chama-se “Pussy Riot”. Pra quem não conhece a língua da mãe Russia, um verdadeiro motim colorido, que em fevereiro deste ano invade uma das principais igrejas ortodoxas do país em protesto contra o recém-eleito(?) presidente(?) Vladimir Putin (e sua ligação com a igreja dentro de um estado laico). Caso difícil, e tentemos não cair novamente no risco implicado ao se vociferar novas verdades. Diria um certo cuidado com o movimento de um ocidente “bonzinho” a julgar os impropérios do oriente. Tentemos habitar um pouco o incerto. Já há um tempo não está claro de que modo se produzem as oposições, revoltas, manifestos, encontros e debates. Não é de hoje a inconsistência da divisa direita/esquerda, tal qual a pueril divisa do certo/errado a analisar situações como esta. O método é sempre algo discutível, o possível desrespeito, a privação de um espaço destinado a outras crenças e ideologias. Um pequeno canto que ressurge, como uma pequena cutícula que nos salta maliciosa de um dos dedos. Ao mesmo tempo há a complexidade de contextos políticos na qual estes acontecimentos surgem, e os efeitos políticos que buscam atingir. Ação e reação. Enviadas para uma prisão na Sibéria (destas que ironicamente são construídas sem muros), revitaliza-se a violência de Estado na opressão às diferenças (neste caso, ao “vandalismo”) que ele mesmo produz.

Acontecimentos. Tentemos forçar a dobra, eliminando distância e tempo, pois a indignação frente à liberdade de expressão suprimida e aos direitos humanos básicos desrespeitados no caso citado possuem um algo que nos toca. Na república tupiniquim das cracolândias, das bicicletas, dos bares fechados e da Copa do Mundo também vivemos sob um escrutínio da ordem e dos bons costumes. Pequenos projetos autocráticos vestidos de benevolência cotidiana. O incômodo da diferença é ponto comum, e não raro aplaude-se a violência diante de situações cuja análise recai, novamente, no campo moral. Ouro de tolo. Luta do bem contra o mal. Distante do espetáculo, as marcas e os efeitos destes movimentos permanecem na memória volúvel, como cupins a remodelar a estrutura. Adubo para a erva daninha que resiste e cresce.

 

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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2 Responses to “A crônica de Guto Piccinini: Pequenos cantos que insistem”


  1. 1 Alexei Conte Indursky
    23 de agosto de 2012 às 18:26

    Crítica interessante e justa!
    merecia um link para a manifestação delas, assim como a referencia para a interdição da gay parade me solo russo por cem anos, declarada pelo Sr. Vladimir semana passada!
    Abraço


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