Posts Tagged ‘O Banquete

01
fev
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Da disjunção à conjunção

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Da disjunção à conjunção, por Jaime Medeiros Júnior

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Como iniciar este texto? Apenas um segundo atrás, tinha pensado começar mais ou menos assim: perguntas sempre haveremos de tê-las! Já no instante seguinte discordei de mim. O certo é que volta e meia acabamos por nos pôr nos mesmos bretes.

Umberto Eco, em recente entrevista à revista Época, diz que a internet só serve àquele que já é detentor de conhecimento, e, portanto, sabe onde quer ir. Quem tudo desconhece não sabe procurar, e, portanto, vai ter em qualquer parte.

Isso me faz lembrar Calvino, o reformador, para quem a salvação não tinha parte alguma com a fé, ou sequer com o amor e suas obras, mas unicamente com a vontade do senhor. Deus já escolheu os justos e estes hão de ser salvos.

A universidade, sugere Eco, talvez devesse se ocupar de desenhar os filtros necessários para que aquilo que se tenha apreendido da internet possa ser transformado em conhecimento. Aqui, creio, cabe outra pergunta: existe algum mecanismo de uso universal e de fácil manejo que seja capaz de dar forma ao informe?

Platão parece ter entendido que não temos nenhum método seguro para atingirmos o conhecimento, senão, talvez, através do confronto com a aporia. Primeira das armas a se usar para nos livrarmos daquelas certezas que são não mais do que falsos conhecimentos. Somente Eros, o filho de aporia, é filósofo, ou, dito de outro modo, a aporia é mãe da filosofia. Do que talvez pudéssemos depreender que só após termos caído em aporia,  e tendo assim nos posto no mesmo estado tenso das cordas do arco, é que conseguiremos produzir novo disparo de nossa seta em direção a um novo saber, ou, tensos como as cordas da lira, quando poderemos produzir uma nova harmonia.

Lutero, de modo diferente de Calvino, acreditava que as virtudes teologais – fé, amor e esperança – poderiam ser um bom meio de atingirmos a salvação. A salvação para um cristão se daria através de sua fé em Jesus Cristo. Entendia Jesus Cristo como um modelo a ser imitado ativamente. O mesmo modelo, Cristo, também foi entendido em um modo contemplativo, como por exemplo, na Imitação de Cristo, de Thomas Kempis.

Creio, por isso – já que em algum momento temos de chegar à parte interpretativa deste nosso texto –  não por acaso Eco reproduz a dança do homem no ocidente, dança constante, que se produz no espaço entre as duas colunas do templo. A coluna do rigor, que perenemente nos condena a nós mesmos, e a coluna da graça que perenemente nos liberta. A cruz de Cristo é a transfiguração da aporia em mistério, que entende que estamos ali naquele ponto central de suprema tensão, entre as forças que nos querem fiéis ao alto e aquelas que nos querem próximas do mundo, e que nos constrangem a tentar envolvê-lo num abraço amoroso. Aqui passamos da disjunção a conjunção dos contrários. Lutero, talvez no seu maior comentário ao evangelho, por medo de que incorrêssemos em idolatria, arrancou o Cristo a morrer da cruz, e colocou uma cruz preta, ali, no centro de uma rosa branca, outros comentadores vieram, e colocaram uma rosa vermelha, bem ali no ponto central da cruz, o de máxima tensão, como um signo da vida que está sempre a florescer em toda e qualquer parte. E aqui talvez valha ainda lembrar Diotima, uma mulher, que lá naquela Grécia que hoje subpomos empedernidamente masculina, já esclarecia Sócrates, o qual nos faz o seguinte relato: O que então lhe disse foi mais ou menos o que Agatão acabou de afirmar: Eros é um deus amante das coisas belas. Ela contestou minha proposição ponto por ponto, como fiz neste momento com a dele, para mostrar que, de acordo com o meu próprio argumento, ele não podia ser belo nem bom. Nesta altura, lhe falei: “Como assim, Diotima! Nesse caso, Eros é feio e mau?”

E ela: “Não blasfemes! Pensas, porventura, que o que não é belo terá de ser necessariamente feio?”

“Sem dúvida.”

“E quem não for sábio, será ignorante? Não percebeste que há algo intermediário entre a sabedoria e a ignorância!”

“Que poderá ser?”

Neste ponto, Platão parece afirmar Eros como a eterna presença de um terceiro na cena universal do embate dos opostos. Aqui invito, a quem interessar possa, deixar de ler as considerações desse cuidador de criancinhas, para tomar a grande nau que é o Banquete. Pois, já no parágrafo seguinte, Diotima há de esclarecer Sócrates. Sem mais, por hoje, e até a próxima.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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18
jan
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Eros, filho de aporia

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Eros, filho de aporia, por Jaime Medeiros Jr.

Estou a ler novamente o Banquete de Platão. Daí me muni da vontade de ler um tanto mais a sério. Busquei comentários. Estou a lê-los concomitantemente. Se nisto vier a descobrir algum remansozinho em que me pôr por algum tempo, já estarei bem contente por ter, mesmo que circunstancialmente, ancorado os apelos distraídos do meu coração. Como não se pôr a deriva neste grande e vago mar de saudadesejo que se há de navegar?

A edição da Editora da Universidade Federal do Pará, 2011; traz um alentado estudo introdutório, onde se comentam várias das reentrâncias do texto. Lembra-se, entre outras coisas, o mito platônico do nascimento de Eros, filho do casal de opostos, penia ou penúria e poros ou abundância. Eros, aqui, não é outro senão a consequência harmônica desta contradição.

Pobre como a mãe, mas cheio de engenhos e de coragem – caracteres herdados do pai –  para se pôr a busca do que é belo. Sempre cobiçoso da abundância, mas condenado a estar eternamente em penúria, em a-poria. Um pouco mais adiante, hei ainda de aprender, junto com Sócrates, de Diotima de Mantineia, sábia sacerdotisa, que bem mais como um novo avatar de Penia, despe Eros da sua condição divina e dá à luz a sua verdadeira natureza. Eros é um daimon.

O que é um daimon? Um ser de um tipo intermédio entre homens e deuses. Pobre, pois lhe faltam todos os recursos específicos da natureza divina. Mas, mesmo assim, devoto servidor do belo, Afrodite, a quem há de cobiçar por toda sua vida.

O próximo passo, diriam alguns, seria empobrecer ainda mais a Eros e igualá-lo a Sócrates, segundo outros talvez elevar Sócrates a condição de Eros. Aqui temos a filosofia se igualando a erótica, onde Sócrates é o mesmo que Eros e a filosofia o mesmo que a erótica. Eros nasce de sua mãe Penia, que também pode se traduzir por a-poria – a que não tem recursos – o que o obriga a uma cobiça, a um desejo constante do divino. O que, ao fim e ao cabo, não livre de um certo atrevimento, pudéssemos arriscar dizer, que a filosofia é filha da penúria, da aporia.

Xiii! Parece que perdi meus óculos, e sem aquele intermédio de que se fazem as lentes já não consigo reconhecer muitos destes caminhos por entre estas letras aqui de perto? Bah!!! Já quase não consigo enxergar!!! Mas procuremos um pouco mais, aqui por trás deste outro livro. Ufa, aqui está, encontrei!!! E agora já não agonizo, já não derivo e já posso descansar um pouco aqui nesta abundância de caminhos que reconheço neste único texto frente aos olhos, pois que todos me foram entregues por aquele único intermédio de que se faz as lentes.

Retomemos. Portanto parece ser só por meio desta coragem com que determino a atividade, os apelos do coração deste nosso Eros, pois filho de poros – que hão de se originar deste sentir falta, deste cobiçar, pois também filho de aporia – que acabarei ainda por focar este belo a que quero chegar. Isto, por certo, nada garante, mas a depender da fidelidade com que me puser a amar e de uma possível circunstancial disposição para a generosidade que os deuses possam comportar, talvez ainda venha a topar com algumas pistas – opiniões corretas – que possam, por fim, levar ao verdadeiro endereço do belo que estou a almejar.

Por hoje, aqui ficamos. Certamente, ainda nos veremos em outro ponto do curso desta nossa jornada.

Um ab e até já

Jaime

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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