Posts Tagged ‘paixão

06
mai
12

A crônica de Rônei Rocha: Auto-ajuda

.

.

Auto-ajuda, por Rônei Rocha

.


Até hoje, eu nunca atendi um apaixonado. Pelo menos não um que esteja sendo correspondido em sua paixão. E não é um fenômeno restrito a saúde mental; clínicos gerais também notam essa estranha ausência nos seus consultórios. Pode-se ponderar que pessoas felizes adoecem menos, mas eu não estou dizendo que apaixonados sejam felizes, tampouco mais saudáveis que o restante da população.

Quando nos apaixonamos, somos atropelados e vencidos por nossos sentimentos, ganhando assim aquela razão de viver, a desculpa para tudo, um combustível invejável e o perdão de nós mesmos.

Quem precisa de um médico?

Um estado de espírito tão especial, que só Chicos e Nerudas conseguem descrever plenamente, mas que a enxerida da medicina, como de costume, tinha que meter o bedelho e dissecar.

Lá estão as nossas paixões, numa minguada e fria classificação, catalogadas como stress. O pior é que, por mais estraga prazer que possa ser, não há como contrapor, pois qualquer mudança que altere o nosso funcionamento habitual, não importando se para melhor ou para pior, exigindo de nós uma nova adaptação, caracteriza o stress.

A fina ironia é que a mesma capacidade impressionante de adaptação, salvadora e vital em tantas situações difíceis que precisamos enfrentar, é, também, o carrasco da paixão. Ela é capaz de fazer, não só com que eu me acostume com um câncer, como, em pouco tempo, nos torna íntimos; e é meu câncer isso, meu câncer aquilo, o meu é maior que o teu, etc.

Não por coincidência, todas as pesquisas que já foram feitas a respeito de mudanças estressantes na nossa vida e o tempo que se leva para acostumar-se com elas, apontam para o mesmo prazo: dois anos. Tanto para nos ambientarmos a uma nova cidade, um novo peso, uma nova condição (paternidade, viuvez, riqueza) como para que se apaguem as chamas de uma paixão; lá estão os tais dois anos.

Quer dizer então que estamos condenados à triste sina de buscar eternamente novos objetos de paixão? Um novo hobby, um novo trabalho, um novo corpo mais novo, pois todos virão com o prazo de validade estampado em uma lápide? Não! Existe uma saída. Foi descoberta por cientistas da Groenlândia enquanto analisavam o comportamento de pinguins felizes; é muito complicada, antinatural, extremamente trabalhosa, mas de resultados comprovadamente não garantidos.

Consiste em fugir da sua zona de conforto e entregar-se à caça do stress, buscando mudanças dentro do mesmo; sentindo sempre algo novo, de preferência que faça a adrenalina ferver, nós conseguimos ressuscitar a paixão. Então mexa-se. Adote um pitbull para fazer companhia ao seu poodle; diga não a sua sogra; esqueça os bicos de papagaio, dispense o peão e dome você mesmo os seus potros; ande de táxi em Porto Alegre; seja voluntário num asilo; declare ao seu amigo que você ama ele e a sua mulher tudo o que você realmente pensa sobre ela; comece a escrever a sua biografia — a verdadeira. Não há nada que se compare; sentir o sangue quente correndo em nossas veias, ou fora delas, uma paixão não tem preço.

Rônei Rocha é médico psiquiatra de Uruguaiana – RS.

.




novembro 2014
S T Q Q S S D
« out    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Categorias

Blog Stats

  • 451,289 hits

Comunidade

Follow Palavraria – Livros & Cafés on WordPress.com

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.454 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: