Arquivo para 14 de abril de 2010

14
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A crônica de Jaime Medeiros Jr.: Como se caísse

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Como se caísse, por Jaime Medeiros Jr

.03

A gente acaba sempre se aventurando  a eleger algo como bom. O quê? Peguei o livro na estante. Não era grande, li um pouco. Gostei. Pulei algumas páginas, pus olhos de passeio pelo livro, gostei. Me certifiquei, busquei os temas; ela esperava um pouco mais, um trem, pessoas querendo, algo se escondendo no amarfanhamento dos afazeres, um poema para  Ana Cristina, um poema para Andréa do Amparo, um poema para A fera na selva, me decidi a comprar o livro, Como se caísse devagar*.



Por que gostei deste pequeno livro? Algopralém de ser bom parece determinar a escolha, o universo  parece  se comprimir  no momento de  se fazer a  de-cisão. Mas quem é o Universo? Algo de espelho há neste, naquele e naqueloutro momento, algo de narciso no gosto. A nossa jornada se faz sempre no rebuscar o que se nos concerne. Dito isto, como não se aterrorizar diante do inexpugnável limite das urdiduras com que componho mais este entrecho.

Isto faz lembrar o menino que se interrogava, por que eu sou eu, e não aquele ali? Também me faz recordar agora um outro jeito de pensar, aquele que nos diz que mesmo este eu é fictício, que é a simples consequência de causas antecedentes e causa dos consequentes, portanto não está isolado, só é porque se relaciona, porque se refere. Visto deste ângulo, já não sou eu quem decide, mas as escolhas passadas tramam as minhas escolhas de agora, as escolhas de quem vive ao meu lado tramam o que  hei de sentir, as escolhas do quelônio que vive preso no zoológico de Londres no Regent’s Park tramam influências que desconheço, mas que por certo são importantíssimas na hora em que me determino a dizer se gosto ou não de ti. Xi! Vixe, Nossa Senhora! Agora como não se aterrorizar com essa minha descomunal falta de limite, com esta intersecção de tudo neste ponto exato em que me retenho?


Mas esqueçamos um pouco tudo isso. Fujamos um pouco desta nossa dor de cabeça. E retornemos ao livro, que, nos seus três primeiros versos, nos diz:

haveria alguém detrás das cortinas
quando as luzes se acendessem quando
as cortinas se abrissem haveria alguém

*Como se caísse devagar, de Annita Costa Malufe

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Um dos produtores do Portopoesia. Colabora no blog Filhos de Orfeu – http://filhosdeorfeu.blogspot.com/

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