Arquivo para 12 de maio de 2010

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A crônica de Jaime Medeiros Jr.

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Recado a um possível leitor, por Jaime Medeiros Jr.

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Tim Burton é …………………………. . Na minha versão para os pontinhos, um chato. Conseguiu encerrar Alice, agora aos 17 anos, dentro do seu noir pastiche cheio de cor, num mundo, para mim, nada maravilhoso. Faz as referências psi pseudo freudianas de praxe. Acaba com o universo das sutilezas e dos paradoxos da palavra construído por Lewis Carroll.

O que tem de bom isso? Estou relendo Alice. Até o momento reli os três primeiros capítulos, na edição da Zahar, com ilustrações de John Tenniel [lindas por sinal], agora em um simpático formato 13/16 e com capa dura [“pois do que nos serviria um livro sem figuras e nem ilustrações ?”].

Então a gente cai sem se perceber, junto com Alice, sem nem pensar como haverá de se fazer para mais tarde se sair dali, ela, com certeza, há de sair, mas nós talvez nunca venhamos a nos recuperar da queda.

Demoremo-nos, contudo, um tanto mais aqui pelos inícios da coisa, e consideremos um pouco sobre o nome Alice, que em português e nesta forma [pois os, tão incorrigíveis quanto Alice, dicionários de nomes apontam Célia como uma variante do nome] parece não poder se traduzir em masculino, parece também não se conformar a formas adultas de gente, senão quando na forma [séria] Célia, que parece combinar bem com nossas avós. Uma das formas que mais me encanta do nome é quando se combina ao nome Maria, nos obrigando a juntar arquétipos (mãe-menininha, mãe-criança). E agora escrevendo esta passagem também recordo a joãogilbertiana forma Doralice [e antes disso caymmiana]. Toda esta derivação é necessária somente para te fazer crer e te mostrar, que aqui tudo começa por um nome.

Sigamos o nosso caminho, seguindo ainda um pouco mais a nossa miúda, que mais e mais miúda há de ficar depois do tombo, após beber do “beba-me”posto a mesa posta na sala das portas. Líquido maravilhoso que a faria passar pela porta estreita atrás da cortina, se não fosse ela ter esquecido a chave em cima da mesa. E neste momento de verticalismo das idéias, ela se nos sai com uma, que nos revela que não está aqui para brincadeiras, mas é uma menina muito da compenetrada quando nos pergunta:

“Primeiro, no entanto, esperou alguns minutos para ver se ia encolher ainda mais: a idéia a deixou um pouco nervosa; ‘pois isso poderia acabar’ disse Alice consigo mesma, ‘me fazendo sumir completamente. Nesse caso como eu seria?’ E tentou imaginar como é a chama de uma vela depois que a vela se apaga, pois não conseguia se lembrar de jamais ter visto tal coisa’.”

Assim como ela, tampouco vi, e posso jurar que o Tim Burton também. Mas isto é apenas um detalhe perdido em texto, e de que serve um texto sem figuras?

Não muito depois de comer do “coma-me”, e de se por a ganhar centímetros e metros aceleradamente, continua a se descobrir na verticalidade das idéias:

“‘Mas agora’, pensou a pobre Alice ‘não adianta nada fingir ser duas pessoas! Ora, mal sobra alguma coisa de mim para fazer de mim uma pessoa apresentável”. E logo adiante. “ ‘Mas se não sou a mesma, a próxima pergunta é: “Afinal de contas quem sou ? Ah, este é o grande enigma?”’”

Dito isto, me recuso a seguir te apresentando esta miúda, espero que a descubras por ti mesmo.

Até mais,

um abraço,

Jaime

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Um dos produtores do Portopoesia. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

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