26
maio
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A crônica de Jaime Medeiros Jr.

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Alguma leitura em que se demora, por Jaime Medeiros Júnior

Na tarde deste último domingo fui ao shopping Nova Olaria. Compro o ingresso para a sessão das 18h. Ponho o bilhete no bolso. Sento em uma das mesas do último café, antes do cinema, com mesas com cadeiras verdes. Continuando a leitura de Alice, acabei o sétimo capítulo. Onde se toma chá com a lebre de março e com o chapeleiro. Tomo inicialmente 2 cocas zero, que compro na tabacaria, o café está fechado. Quando percebo que depois da porta da árvore tudo começa de novo. Estamos de volta à sala das portas, só que agora não mais esquecemos a chave, já falamos com a lagarta que já em suas primeiras palavras nos interpela – quem é você? – já encontramos o gato de cheshire antes de desaparecer e depois de confessar que se aqui estamos é porque somos/estamos (to be) loucos, gato que por fim se resume em um sorriso, que deverá nos acompanhar até o final dos tempos. [No dia anterior abri a edição comentada da Zahar, que em suas notas nos situa bem com relação às circunstâncias vividas e imaginadas por Carrol].

Estou agora com um pouco de sono, o café abriu, peço um duplo expresso, e uma água com gás. Luto um pouco mais com o sono [alcalose pós-prandial]. Busco Eco na sacola que me acompanha, vou ler o terceiro passeio pelos bosques da ficção. Aqui ele nos demonstra o quanto a demora pode ser sadia e desejável para uma história, o quanto tirar o pé do acelerador pode nos servir para o contar bem uma história, isto não quer dizer que devamos nos deter somente  sobre elementos essenciais do texto, às vezes mesmo o derivar para miudezas, que nada significam, é suficiente para obtermos o efeito desejado, deixar o leitor alerta, algo há de acontecer. Peço dois drambuie e mais um café.

Pago a conta. Deixo o café. Chegou a hora, vai iniciar a sessão. Entro no cinema. Me sento na última fileira, como de praxe. Reconheço uma ou duas pessoas, algumas bem que podiam ter ficado em casa [but, that’s the life]. O filme começa, começa lento. E quando quer tomar alguma velocidade, uma das principais personagens, uma bela rapariga, é jogada contra parede. Bum, craft, blum – escolha o que lhe parecer melhor representar um corpo se estatelando de encontro a uma parede de estação de metrô. A projeção se apaga, as luzes do cinema se apagam, restam somente as de emergência, as luzes de todo os arredores se apagam. Entram para informar que estão tentando saber da CEEE quando voltará a luz. Não conseguem falar com a CEEE, como de hábito nestas horas. Dão a chance de que se escolha permanecer, ou receber o dinheiro, ou um vale com validade de um mês. As pessoas permanecem, a maioria. À medida que o tempo passa, as pessoas se desacomodam. Tecem comentários. Pois estava lendo o livro, só vim depois de terminar o livro. São 512 páginas. É muito bom. Ele já viu o filme 3 vezes. A orelha do livro nos conta que o autor morreu assim que entregou os livros para a editora. Pena. Nem conseguiu gozar o sucesso. Um pouco mais de tempo, as luzes continuam apagadas. Já se passaram pelo menos uns trinta minutos. Na incerteza de quanto mais terão de esperar, as pessoas desistem, resolvem optar por ver outro dia. Saio. E pergunto se eles do cinema iam ficar, e se sairá a próxima sessão. Sim, a próxima sessão sai as 20h45, se houver luz.

Resolvo ficar, me sento, peço uma coca zero. Retomo o Eco, agora o seu terceiro passeio está num ponto em que diz que o narrador se aproxima do seu lócus e da personagem usando duas técnicas cinematográficas, o zoom e a câmera lenta, mas como se estamos a falar de Manzoni, escritor do séc. XIX, de muito antes do cinema. E aqui Eco diz: não venham me dizer que um escritor do século XIX desconhecia técnicas cinematográficas: ao contrário, os diretores de cinema é que usam técnicas de literatura de ficção. Deste ponto em diante passei a pensar um pouco no que compõe a demora e a velocidade num filme. E daí me lembrei da trilha, e me lembrei que sempre pensei que se Nietzsche tivesse vivenciado a experiência da sala de cinema, aquilo que ele antevia na ópera wagneriana, o casamento da forma apolínea com a dissolução da música dionisíaca, parece ter se dado em modo perfeito no cinema. E aqui parece estar a luz que alumia o caminho para entendermos um pouco mais sobre a demora ou velocidade do texto que criamos. Está na música que se faz nele. É ela que dita o ritmo do texto. No entanto, este é o ponto da história que pertence a Dionísio, e como Dionísio não é muito adepto de limites, é o ponto da história do qual não se pode ter posse total. Quando corto aqui, sinto falta ali adiante. Quando espicho ali, posso precisar podar mais além. Se determino causas, não consigo segurar as conseqüências. Mas por fim fiz as escolhas. Te entrego o todo. E se for do desejo do deus, terá sido bem feito. Acabo o terceiro passeio.

Agora resolvo seguir outros rumos, busco na sacola A resistência, de E. Sábato. Onde se lê no primeiro parágrafo: há certos dias que se acorda com uma esperança demencial, momentos em que sinto as possibilidades de uma vida mais humana estão ao alcance de nossas mãos. Hoje é um desses dias. Depois segue falando da televisão, que nos massifica. Não acabo. A sessão vai começar. Bom suspense, boa trama, muita morte, gente diferente, sexo, poder, racismo, nazismo, estupro, por fim, ótimo entretenimento. Depois esqueça, pelo amor de Deus.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Um dos produtores do Portopoesia. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A Crônica de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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1 Response to “A crônica de Jaime Medeiros Jr.”


  1. 1 erika
    26 de maio de 2010 às 10:48

    sou sempre suspeita já q sou fã de carteirinha da sua pessoa e do seus escritos ( nem todos, pequeninha resalvazinha…) gosto de vc como personagem do que escreve…um café, dois cafés, dois licores, a coca,olaria, meio maigret, bem vc, q vc pode não achar mas tem um gosto de savoir de vivre apesar das mazelas ou inclusive com elas ( ” Não se faz arte, nem a sentimos com a cabeça, mas com o corpo inteiro; com os sentimentos, os pavores, as angustias e até os suores. ” Ernesto Sabato)bjo erika


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