Arquivo de junho \30\UTC 2010

30
jun
10

Prosa ligeira – Jaime Medeiros Jr: uma cantilena…

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Uma cantilena ou um texto frouxo que se quer dizer, por Jaime Medeiros Jr.

fôssemos pensar
das laranjas o gosto
comeríamos pouco doutras coisas
e por fim
diríamos palavras que não se comem
e que nada sabem do que nos toca a língua


Tocar o mundo com nossas palavras parece impossível. Imaginar que saibamos algo em nossa experiência, que possa ter o numen por objeto, e não o fenômeno, talvez seja só vã esperança. Então, como viver em meio aos outros sem aceitar que a vida é ilusão e nossos diálogos uma conversa de doidos?

Nasci de pai e mãe. Sobrevivi ao canal de parto e às intempéries dos tempos do início. Superei a infância e a adolescência. Estudei. Tomei ciência da língua. Trabalho. Retomo a língua, agora não mais como um instrumento de investigação das coisas, mas como coisa, coisa por demais minha e que aqui te ofereço em sacrifício. Coisa que fabrico em pequenos sortilégios.

Agora é só administrar o presente. Impor-se a tarefa de costurar os retalhos. E não se esconder embaixo da estória que resolveste contar. Sei que em mim me caibo, mas quanto tráfego, quanto sim com vontade de dizer não. Quanta imprecisão no me dizer.

Hoje, flores no caixão de minha avó. Palavras, aos montes, de pintar o que era com o que deveria ter sido. Palavras de confiança impotentes ante o abismo. Nem tudo é circo, algo cala, se pôs tampa sobre a existência de um corpo que se desfaz. Assim se o guarda junto aos ossos da família. Tentando se ocultar do medo que dá ao ter de se enfrentar o que não se sabe.

Depois, um fio condutor feito de histórias próprias narradas e incentivadas para que o sejam e que faz risos nos rostos de meninos e meninas da periferia de São Paulo. E mais uma lágrima, antes de apagar o que se vê, insiste em se interpor aqui entre eu e você. Entre nós, que nos acostumamos a habitar o espaço exíguo das nossas expectativas e onde, no fim do dia, ainda há de se adormecer. [Obrigado amigo Canellas, sempre é bom te ver. Brasileiros do dia 24/06/10, rede Globo]

Era uma vez um menino, ou noutra versão da história um pequeno jacaré, que ao ver a luz da lua refletida sobre as águas da lagoa, se apaixona por/quer aquela imagem. Quando tenta tocar/comer aquela luz não consegue, a luz sempre está um pouco mais além. O fim da história todos podem já supor, um se afoga, o outro engole água de montão e logo descobre, se ilumina, luz mata ou nos faz viver.

Seria interessante visitarmos agora o meu amigo Marcos Fernando Kirst, que tão bem sabe falar de fantasmas, que suas palavras parecem capazes de nos fazer tocá-los: A imaginária presença entre eles do já falecido avô do avô e do ainda não nascido neto tornou-se, por um instante, como que real em seu pensamento, e impressionou-se com os fantasmas que criava. Saltava assim, desordenadamente, de uma imagem a outra, naquela atenção dispersa, própria de quem decide libertar a mente para vagar sem rumo. Falava o avô e ele sentia prazer em compartilhar a cuia do chimarrão e nada fazendo senão ouvindo e voando. Sorvia ensimesmado o mate escutando o avô fazer prenúncios de chuva e acompanhava o passeio da cuia de mão em mão entre todos os presentes, imaginários e reais, àquele surreal encontro. Via o seu futuro neto recusando a cuia que lhe oferecia, pois era ainda muito jovem para apreciar a água na temperatura que agradava ao avô do avô. Largava-se ao devaneio com o mesmo torpor de quem se deixa embriagar por uma sucessão de cálices de vinho. Não mais discernia as palavras do avô; apenas embalava-se ao som contínuo e abafado do timbre forte de sua voz e se perdia cada vez mais na loucura que engendrava naquela onírica tarde de feriado, invocando fantasmas passados e vindouros. (Dois passos antes da esquina, Marcos Fernando Kirst, Ed. AGE).

Aqui, então, a gente chega a se desconstituir, a se desinformar. E pondo-se em um ponto a gente se infla de considerações quanto ao trajeto a ser feito. E se traça o curso a ser percorrido, feito de infinitos, intensivo e extensivo, indo-se além do que se pode resolver. E como já acusava o cusano, mesmo que te pareça estares indo por um caminho reto, ele pode entender que tudo, mas tudo mesmo era só um arco desta circunferência infinda, onde o centro pode ser você.


fôssemos pensar
das laranjas o gosto
comeríamos pouco doutras coisas
e por fim
diríamos palavras que não se come [um deslize –
com consciência donde se está]
e que nada sabem do que nos toca a língua.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

28
jun
10

Aconteceu na Palavraria: Lançamento do livro Zero Um, de Guto Leite.

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Sexta, 25, aconteceu na Palavraria o lançamento do livro Zero Um, segundo livro de poemas de Guto Leite. Marcaram o evento leituras de poemas e um bate-papo do qual participaram Luiz Augusto Fischer, Homero Vizeo Araújo e Luciano B. Mello.

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27
jun
10

Programação de 28 de junho a 03 de julho

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28 de junho a 03 de julho


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30, quarta, 19h: Lançamento do livro Moinhos de Sangue, de Ana Klein. (Editora Dublinense)

Bia Tognazzi é uma linda mulher que pertence a uma família tradicional de Porto Alegre. Exigente, dispensou todos os homens interessados quando era jovem. E, claro, brincou com os sentimentos de muitos outros. Agora, Bia está mais velha e disposta a acabar com a solteirice. Mesmo que, para isso, precise tirar algumas pessoas do caminho.

Moinhos de sangue é uma sátira sobre a elite portoalegrense, e enfoca os arredores e os frequentadores da Padre Chagas, no Moinhos de Vento, região mais badalada da cidade.

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A certidão de nascimento diz Porto Alegre e os comprovantes de residência dizem Novo Hamburgo, mas é em suas viagens que a cidadã do mundo Ana Cristina Klein encontra inspiração para suas histórias. Participou, entre outras, das antologias 102 que contam, Porque hoje é sábado e Outras mulheres, todas organizadas por Charles Kiefer.

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01, quinta, 19h: Lançamento do livro Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho. (Cia. das Letras)

Depois de quase dois anos em produção, essa ambiciosa parceria entre dois jovens talentos de suas áreas traz ao leitor um mosaico de tramas realistas e fantásticas, dramáticas e cômicas

Um escultor recebe um inusitado convite para protagonizar um filme cujo roteiro parece estranhamente inspirado em sua vida privada. Um jovem vendedor de uma loja de ferragens, adepto da dominação sexual com cordas, descobre que a linda garota por quem se apaixona é particularmente frágil e suscetível ao seu fetiche favorito, o que os conduz a um perigoso embate. Um astro decadente do cinema chinês vem ao Brasil para o lançamento de um filme e torna-se suspeito da morte de seu companheiro de cena. Um playboy mimado e arrogante é expulso de casa pelo tio e enviado à Europa para se virar sozinho. Um escritor deprimido e sua ex-esposa, pais de uma menina, encontram-se em parques e lanchonetes de São Paulo, procurando manter o vínculo afetivo. Por fim, uma velha senhora grávida e solitária vaga por sua mansão e tem encontros oníricos com uma baleia cachalote na piscina de sua casa.

Somando mais de trezentas páginas, as tramas são amarradas por temas e subtextos recorrentes, tais como o confronto dos personagens com acontecimentos drásticos ou misteriosos que transformam suas vidas, a conciliação da vida com a arte e a tentativa de preservar o afeto e o amor em relacionamentos ameaçados por circunstâncias adversas.

Rafael Coutinho nasceu em São Paulo, em 1980. Suas histórias em quadrinhos foram publicadas nas antologias Bang Bang e Irmãos Grimm.

Daniel Galera nasceu em São Paulo, em 1979, e vive em Porto Alegre. É escritor e tradutor. Publicou os livros Mãos de Cavalo e Cordilheira, entre outros.

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03, sábado, 18h30: Encontro literário de Christina Dias e André Neves. Da série Palavra – Alegria da Influência, promoção do Jornal Vaia.

Christina Dias nasceu em Porto Alegre em 1966. É autora de “O Quadro da Andréa”, indicado ao prêmio Açorianos de Literatura, “Menina Luz”, prêmio O Sul, Nacional e os Livros, “O galinheiro do Bartolomeu”, Prêmio Açorianos de Literatura de 2006, “Iberê menino” e “O armário do João-de-barro”, também indicado ao Prêmio Açorianos de Literatura de 2007. Mantém o blog Conversinhas.


André Neves nasceu no Recife. Formado em Comunicação Social, interessou-se também pelas Artes Plásticas e passou a dedicar-se exclusivamente universo da literatura e das imagens para crianças e jovens. No Brasil, ganhou prêmios importantes: Prêmio Luís Jardim, melhor livro de imagem 2003, Prêmio Jabuti 2004, Prêmio Açorianos de literatura 2005 e 2006, 2008. Também participou de mostras e exposições de ilustração no Brasil e no exterior como: XX Mostra Internazionale d’illustrazione per l’infanzia – Sármede 2002 e 2008 e Bienal Ilustração Bratislava 2005 e 2007. Tem vários títulos publicados no Brasil e no exterior. Atualmente, ele mora em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Experiência que tem contribuído para a criação híbrida de suas imagens. Mantém o blog Confabulando Imagens.

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26
jun
10

A casa tomada, leitura de Julio Cortazar

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Toques da Palavraria

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La casa tomada. Animação baseada no conto A Casa Tomada, narrada pelo autor, Julio Cortázar. Juan e Ana são dois irmãos que vivem sós numa velha casa do bairro Belgrano. Uma tarde, sentem a presença de uma terceira pessoa dentro da casa.

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25
jun
10

Lançamento do livro Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho

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Na Palavraria, 1º de julho de 2010, quinta-feira, às 19h

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21
jun
10

Aconteceu na Palavraria: lançamento dos novos livros de Alexandre Brito e Ronald Augusto

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Sexta, 18, Alexandre Brito, Ronald Augusto e convidados estiveram na Palavraria festejando o lançamento de seus novos livros, editados pela Éblis: Metalíngua, de Alexandre, e Assoalho Duro, de Ronald (este em 2ª edição revista e aumentada). Autógrafos e leituras. Fotos e vídeo com Alexandre Brito.

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21
jun
10

Aconteceu na Palavraria: lançamento do livro O império bandido, de Adroaldo Bauer

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Terça, 15, aconteceu na Palavraria o lançamento do livro O império bandido, de Adroaldo Bauer. Leitura dramática de trechos do livro pelo ator Jairo Klein.

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