03
jun
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Dicas de leitura, por Reginaldo Pujol Filho

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Dicas de leitura, por Reginaldo Pujol Filho

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Bem, prazer, eu me chamo Reginaldo (Pujol Filho) e entre outras coisas, organizei e lancei, pela Não Editora no ano passado, e pela Livro do Dia de Portugal  neste ano, a antologia Desacordo ortográfico. É uma reunião de textos, como tá lá no prefácio do livro, de autores que, em vez do bom português, optaram por escrever num diferente, ótimo, estranho, maravilhoso português. O Desacordo reúne, assim, 20 autores de 5 países (Angola, Brasil, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe) onde o português é falado.

Pois bem, por isso, e acho que também por nossas conversas sobre o livro do Gonçalo Tavares que acabou de chegar, o livro de poesia do Mia Couto (que o Carlos só empresta, mas não vende), o Carlos da Palavraria um dia me pediu o seguinte:

– Tu não faria uma listinha de autores de língua portuguesa africanos publicados no Brasil, tirando o Pepetela, o Mia Couto, o Agualusa, que esses aí todo mundo conhece?

Topei o pedido do Carlos e fiz a listinha. Lógico que está incompleta, mas já tem uns bons meses de leitura aqui embaixo:

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Angola

Luuanda, de José Luandino Vieira – Cia das Letras. As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos – os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. Essas histórias curtas buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.

A cidade e a infância, de José Luandino Vieira – Cia das Letras. Os contos de ‘A cidade e a infância’ anunciam algumas das características que se tornariam marcas do escritor – a paisagem urbana e o contexto de pobreza e marginalidade de Luanda; a oralidade pronunciada da narrativa; o convívio e a tensão entre negros, brancos e mulatos; a crítica da modernização excludente. Engajado e radicalmente inovador, Luandino ajudou a consolidar a literatura angolana no período de luta contra a colonização portuguesa, criando uma dicção literária única (sua prosa madura é comparada à de Guimarães Rosa). O livro traz dez narrativas breves, inspiradas na infância do próprio autor, vivida nos bairros pobres de Luanda, em companhia de meninos negros e mestiços. O volume inclui algumas das ‘estórias’ (como o próprio Luandino as chama) mais conhecidas do autor – ‘Companheiros’; ‘O nascer do sol’; ‘A cidade e a infância’ e ‘A fronteira de asfalto’. Este último conto narra a história de duas crianças, um menino negro e uma garota branca, que são proibidos de se encontrar – são apartados por iniciativa da família dela, mas também pela ‘fronteira de asfalto’

Os da Minha Rua, de Ondjaki – Língua Geral. Se é certo que as crianças crescem em segredo, como diz Ana Paula Tavares, de vez em quando se comprova que esse segredo espera uns anos para se desvendar amadurecido em literatura. Assim é o livro de estórias do jovem poeta e ficcionista angolano Ondjaki. Em ‘Os da minha rua’ o autor reedifica os da sua casa – da memória, do afecto, da identidade.

Avodezanove e o Segredo do Soviético, de Ondjaki – Cia das Letras. A PraiaDoBispo é um bairro tranquilo de Luanda – o VelhoPescador cuida de sua rede, o VendedorDeGasolina espera um cliente que nunca chega, AvóAgnette e AvóCatarina conversam com a vizinha e ralham com os miúdos. As obras de um mausoléu, porém, transformam e ameaçam o cotidiano – soldados soviéticos comandam os trabalhos de construção do monumento, e o projeto de revitalização do local ameaça desalojar os moradores. As crianças da PraiaDoBispo assistem a tudo com seus olhos inocentes mas agudos, e divertem-se com as brincadeiras de rua e com a presença extravagante dos estrangeiros. Elas começam a desconfiar que os ‘lagostas azuis’, como chamam os soviéticos, podem estar tramando algo confidencial. Mas o segredo do soviético pode ter a ver com outras coisas – a enorme quantidade de sal grosso encontrada no depósito da construção, os pássaros de plumagens coloridas mantidos presos em gaiolas ou a dinamite estocada nos barracões do canteiro das obras.

Bom Dia, Camaradas, de Ondjaki – Cia das Letras. O menino, filho de um alto funcionário do governo, tem um pajem – o ‘camarada António’, cozinheiro e voz de uma certa camada popular -, estuda numa boa escola, que tem professores cubanos, e desfruta de algumas benesses, como pegar ‘boleia’ (carona) no carro do Ministério e contar com telefone e ‘geleira’ (geladeira) em casa.

Filhos da Pátria, de João Melo – Record. Este livro apresenta personagens que se movem entre uma realidade extremamente dura e os sonhos sempre adiados face à severidade do dia-a-dia, num movimento que se torna muitas vezes alucinante. Uma reflexão sobre os filhos do território angolano e seus complexos destinos é o ponto central de cada um dos dez contos de ‘Filhos da pátria’.

Quem me Dera Ser Onda, de Manuel Rui – Ed. Gryphus. O pai dos meninos Ruca e Zeca leva um porco para engordar no apartamento em que a família mora em Luanda. Os meninos passam a inventar artimanhas para que os vizinhos – funcionários públicos, oficiais, vendedores, membros do partido, não percebam a presença do porco e também passam a ser responsáveis por alimentá-lo com restos colhidos pela cidade, principalmente dos fundos de um hotel. Ao mesmo tempo, articulam possíveis formas para evitar a morte de “Carnaval da Vitória”, nome dado ao porco como referência à data marcada pelo pai dos meninos para seu abate; coincidentemente, no feriado cívico angolano com o mesmo nome.

Os Papéis do Inglês, de Ruy Duarte de Carvalho (português naturalizado angolano) – Cia das Letras. Numa história de ganância, violência e paixão, na Angola do fim do século XX, um professor universitário decide fazer uma viagem de busca no coração das trevas africano para investigar o suicídio de um caçador de elefantes, ocorrido em 1923.

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Cabo Verde

Lisbon Blues (poesia), de José Luis Tavares – Escrituras. A Lisboa vivida pelo poeta em seus trajetos diurnos e noturnos, as expectativas e decepções resultantes dessas investidas… A Lisboa imaginada das leituras que o poeta faz de Cesário Verde, Vitorino Nemésio, Fernando Pessoa… A memória transpessoal do Tejo, dos monumentos, das tabernas, dos cafés, dos jardins e das praças – geografia que condiciona o encontro e o desencontro das comunidades múltiplas. Diferentes cidades confrontadas na linguagem cujo resultado poético maior é o da emergência da consciência crioula.

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Guiné-Bissau

Admirável Diamante Bruto e Outros Contos, de Waldir Araújo – Ed. Thesaurus. Primeiro livro de Waldir Araújo, é um conjunto de quatorze contos onde as personagens vivem acontecimentos às vezes fantásticos, às vezes reais, contados por um narrador desencantado com uma certa urbanidade e que recuperam o imaginário da Guiné-Bissau, de onde o autor emigrou para Portugal em 1985. A propósito do livro, diz o autor: “A motivação para a escrita vem da realidade do meu país. Do meio onde cresci, onde qualquer história singular tem sempre algo de mágico, de fora de comum. Lembro-me que cresci num meio rodeado de figuras que davam interessantes personagens de livros. Situações de vida que, com uma pequena dose de criatividade, tornam-se em ficções memoráveis. A realidade guineense é rica em fantasia e eu costumo apontar no meu caderninho situações aparentemente banais nos quais trabalho depois.”

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Macau

Amor e Dedinhos de Pé, de Henrique de Senna Madureira – Ed. Gryphus. Ambientado no início do século XX em Macau, ‘Amor e dedinhos do pé’ conta a história de Chico Frontaria, um dos últimos remanescentes da família de origem portuguesa que construiu fortuna e boa reputação no tráfico de mercadorias e no combate à pirataria nos portos do sul da China. A linhagem prosperou no negócio e ergueu robusto patrimônio. A decadência veio com a Guerra do Ópio, a fundação de Hong Kong e os avanços da presença inglesa na China. Os membros da família se dispersaram por outros portos chineses, onde também havia famílias portuguesas estabelecidas. Senna Fernandes teve dois dos seus livros transpostos para a tela: “A Trança Feiticeira” e “Amor e dedinhos de pé”.

A Trança Feiticeira, romance de Henrique de Senna Madureira – Ed. Gryphus. A mulher – e as suas múltiplas facetas – é o tema central da obra de Henrique de Senna Fernandes, e o amor, a sua natural consequência, envolvendo com frequência “uma moça chinesa e um rapaz macaense”. De alguma forma, há, nos seus livros, referências autobiográficas. Também ele, o orgulho de uma família tradicional macaense, amou e casou-se com uma bela mulher chinesa, desafiando as convenções de uma cidade pequena e conservadora.

Nan Van – Contos de Macau, de Henrique de Senna Madureira – Ed. Gryphus.

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Moçambique

Rio dos Bons Sinais, de Nelson Saute – Língua Geral. Este é um livro de ausências. Sem grandes gestos, grandes batalhas, grandes epopéias, sem grandiloqüências ou arroubos filosóficos. Os personagens soltos deste árido rio, ainda assim de bons sinais, caminham no dia-a-dia olhando para os próprios pés, contados em fragmentos de um cotidiano que nos chega amarelado, quem sabe pelo sol, pelo pó, talvez mais pelo tempo vivido e a viver. (…) E, obsessiva – enterro após enterro, e mais um e ainda outro –, constante, vagarosa, quase preguiçosa, sem fazer espetáculo de si mesma, a morte. Como fato da vida, pronta, diria amiga. Com quem, de viés, se dialoga e nos ajuda a compreender o que somos. (…) “Rio dos Bons Sinais” é o encontro com Eufrigino dos Ídolos, o homem do luto perpétuo, vovó Mafaduco, a menina dos Prazos, viúva imaculada, e outras gentes, de outras terras, outra maneira de juntar as mesmas palavras, outro mar. (Ruy Guerra)

Niketche – Uma História da Poligamia, de Paulina Chiziane – Cia das Letras. Casada com Tony há vinte anos, Rami descobre que o marido tem várias mulheres em outras regiões de Moçambique. Paulina Chiziane, primeira moçambicana a publicar um romance, combina humor e lirismo neste retrato da cultura moçambicana tradicional e das relações entre homem e mulher num país em que a poligamia é um costume arraigado.

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Timor-Leste

Réquiem Para o Navegador Solitário, de Luis Cardoso – Língua Geral. Na obra ‘Requiem para o Navegador Solitário’ o autor traz como destaque – O Timor-Leste, pequena ilha do Pacífico repleta de conflitos étnicos e políticos, e Catarina, uma jovem inocente que traz na mala, além da roupa, um exemplar de ‘À la Porsuite du Soleil’, relato de viagem de circum-navegação do autor Alain Gerbault. Porém ela ainda traz algo a mais – o sonho de viver uma grande história de amor. De um lado, o Timor-Leste, dominado pelos portugueses em 1512, e que três dias após sua independência, em 1975, foi invadido pela Indonésia; de outro, Catarina, que se dedica à recuperação da fazenda Sacromonte enquanto aguarda, na varanda atapetada de buganvílias de sua casa, a chegada do navegador solitário.

Infantis

O Leão e o Coelho Saltitão, conto de Ondjaki (Angola) – Lingua Geral. Coleção Mama África. A coleção apresenta ao público infanto-juvenil as lendas africanas, através de contos e poemas. Este livro narra a origem do desentendimento entre o Leão, o rei da selva, e o Coelho, o animal mais esperto da floresta. Neste livro, a Floresta Grande atravessa um momento de crise – devido a inundações e incêndios, faltam alimentos para os animais, que então se veem obrigados a comer raízes e frutos secos. Um dia, o Leão, rei da floresta, sedento por carne fresca e abundante, pede conselhos a seu amigo, o Coelho Saltitão. O Coelho, com muitas ideias astutas, arma um plano para acabar com a fome do Leão, mas sobretudo com a sua própria.

Debaixo do Arco-íris Não Passa Ninguém, poemas de Zetho Cunha Gonçalves (Angola) – Língua Geral. Coleção Mama África. Zetho Cunha Gonçalves, poeta angolano, criou seus versos mediante diálogos com a tradição oral dos povos nganguela, tchokwé e bosquímano, que habitam a província do Cuando Cubango, no Sudeste de Angola. As ilustrações de Roberto Chichorro, um dos principais artistas plásticos de Moçambique, revelam a vivacidade deste poemas.

O Beijo da Palavrinha, conto de Mia Couto (Moçambique) – Língua Geral. Coleção Mama África.

O Homem Que Não Podia Olhar Para Trás, de Nélson Saúte (Moçambique) – Língua Geral. Coleção Mama África.

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Reginaldo Pujol Filho é redator publicitário e um dos primeiros autores da Não Editora. Azar do Personagem é seu livro de estréia. Antes disso, publicou contos nas antologias 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), no Armazém Literário e também no Janelas, projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck. É o organizador da recentemente publicada antologia Desacordo ortográfico.

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