Arquivo para 9 de junho de 2010

09
jun
10

A crônica de Jaime Medeiros Jr.

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Uma vez mais, Alice, por Jaime Medeiros Jr.

Acabei de ler Alice no país das maravilhas, passei a ler agora as notas da edição comentada. Notas interessantes, esclarecedoras, nos informam quanto ao circunstancial. O que era voz corrente na Inglaterra vitoriana. O que Carroll informa sobre os passeios com as irmãs Liddell. Daí, me dei conta de que muitas das maravilhosas aparições que se encontram no livro parecem ser frutos da necessidade de aliterar, talvez pelo fato de ter sido primeiro uma história contada, só depois escrita, feita para entreter as três pequenas. Parece que muito mais que buscar explicações do porquê das figuras da lebre de março e do chapeleiro maluco, temos que pensar na aliteração da qual eles advém, da brincadeira com os sons de March Hare and Mad Hatter.

Nestas mesmas notas aprende-se que Mr. Dodgson era originário de Cheshire, região inglesa conhecida por produzir um queijo feito na forma de um gato que sorria, vários autores anteriores a Carroll já tinham se servido da expressão corrente, exemplificando: “Aquela mulher sorri como um gato de Cheshire … Quem foi o naturalista que descobriu essa peculiaridade dos gatos de Cheshire?” [Thackeray, “Newcomes” 1855]. Gato que certamente sumia vagarosamente, no ritmo de quem o devorava.

Neste ponto da leitura destas notas, me dou conta de que muito do encanto que as histórias de Alice nos causam nos vem do apagamento das circunstâncias a que se referem, que enche de mistérios inexplicáveis a nossa leitura. Aqui parece bom ser ignorante, e nos jogar diante da coisa e nos deslumbrar com aquilo, gozando a leitura e o aparentemente inexplicável que se nos dá. Talvez aqui possamos entender bem o conceito de clássico: obra que por mais que suas referências tenham se perdido, não se empobrece, mas acaba, isto sim, por se enriquecer.

Borges insiste sempre neste ponto. O Quixote de Cervantes não é o nosso Quixote. A construção da nossa leitura não consegue, por mais que se conheça a realidade histórica da época em que viveu o autor, viver a experiência daquela realidade, e muito menos ainda, a particular vivência daquela realidade experienciada por aquele autor. O que não nos impede que formulemos todas as teses possíveis sobre a mesma. Desde que estejamos cientes que tudo aqui é brincadeira, mesmo que feita com o maior rigor e sisudez acadêmicos. Não nos enganemos, e aceitemos nossos limites.

E então me meto a ler Rubem Braga. Ah que saudade do que não vivi. O matuto matutava claro e simples sobre o vero que se descola das coisas antes de morrerem. Como ler Rubem Braga sem este amargo de um mundo que ficou ali, que não vi e não verei? Donde hei de exumar o simples?

Depois me pego a acreditar. Visito Eliade, que não se confunde ante à cosmópole que lhe apresentam. E nos fala da opacidade das provas, dos artefatos. Pois qualquer que seja o arqueólogo futuro, só desenterrará os ossos do que hoje vivo. Nada poderá saber do contexto e pretexto que animavam aqueles ossos que desencavou. Assim poderíamos talvez arriscar dizer, que tradição é isto, ossos com o crânio voltado para o leste, e todo o resto, o sonho de quem os encontrou.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

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A Crônica de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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