Arquivo para 16 de junho de 2010

16
jun
10

A crônica de Jaime Medeiros Jr.*: Round about midnight

.

Round about midnight, por Jaime Medeiros Jr.

.

Round about midnight, yesterday [dia 10].  Recebo, via torpedo, a questão: em três palavras, o que importa realmente. Mando minhas três palavras. Depois questiono, responda-me em três palavras o que é isso, por favor.Ela diz: Quem sabe e responde? xi tem mais que três. Sorry.

O responder à brincadeira dessa minha amiga, naquele momento, pego no contrapé, foi de uma delicadeza e um assombro totais, desde que resolvi levar a sério aquele quiz, senão, quem sabe, poderia virar papá de esfinge. De qualquer modo enviei as três palavras solicitadas, que correm certamente o sério risco de entrar para história do pensamento ocidental. De uma forma ou de outra, o que quero dizer é que é bom ter esse tipo de amigo, esse tipo de situação. Outro momento, versão não tão graciosa, e mais puxada para o sério, foi quando tive de responder dez questões sobre poesia, uma entrevista padrão que Marco Vasques, poeta de Florianópolis submeteu a vários poetas dos três estados da região sul do Brasil. Nestes momentos em que tu sabes que tens de dar uma resposta consequente, sem a teres preparado de antemão, sempre dá as caras aquele frio que sobe pela espinha. Mas depois de feito, quando te parece bem feito, sobra um pouco de prazer no final. O livro do Marco Diálogos com a literatura brasileira – vol. III [Ed. Movimento] será lançado, juntamente com seu novo livro de poemas Flauta sem boca [Ed. Letras Contemporâneas], no dia 17 de julho às 19h em Floripa. Pena não poder estar aí contigo Marco, um abraço.

Mas retomemos o quiz de minha amiga. O que o torna tão sério e instigante é imaginar que nossas palavras possam dizer algo de verdadeiro e importante. Pois sempre que buscamos a verdade, cedo ou tarde acabamos esbarrando na possibilidade de ficar em silêncio. O ditado diz a palavra é prata, o silêncio ouro. Ou como nos recomenda Wittgenstein: acerca do que não se pode falar, o melhor é ficar em silêncio.

Cabe lembrar ainda o sonho de Santo Agostinho, que andava atormentado tentando resolver os mistérios da Santíssima Trindade: quando em sonho chega a uma praia em que divisava céu e mar em toda a sua grandeza. Mais adiante naquela praia encontra um menino, que corria a trazer baldes de água do mar e a jogar num pequeno buraco na areia. O Santo pergunta ao menino, o que estás a fazer? O menino diz: vou por todo este oceano aqui neste buraco. Ao que responde Agostinho: mas isto é impossível. Observe quanta água existe, e você quer pô-la toda dentro deste pequeno buraco. Responde o menino: em verdade, em verdade te digo, é mais fácil por toda a água do oceano neste pequeno buraco, do que a inteligência humana compreender os mistérios de Deus. Santo Agostinho acorda assustado e desorientado. Assim corre-se sempre o risco, quando se tratar de linguagem, de ser devorado por nossas próprias palavras.

Hoje ainda aprendi que mesmo a expressão não verbal muitas vezes é ineficaz para alcançar coisas de real importância e, neste caso, dentro do âmbito do humano, restando-nos a quietude como única resposta válida. Cita Montaigne em seus ensaios: Psammenitus, rei do Egito, derrotado e preso por Cambises, rei da Pérsia, ao ver passar a sua filha, prisioneira, vestida como serva, a quem mandavam buscar água, permaneceu quieto sem dizer palavra, os olhos fixos no chão, enquanto todos os seus amigos choravam e lamentavam-se ao seu redor; em seguida vendo que levavam o seu filho para a morte, manteve-se nesta mesma atitude; mas, ao avistar um dos frequentadores  de sua casa sendo conduzido entre os cativos, pôs-se a bater a cabeça e a manifestar extrema desolação. […]

[…] Tendo Cambises perguntado a Psammenitus por que, depois de não se comover com a desgraça do filho e da filha, suportava tão penosamente a de um amigo, respondeu ele: “É que apenas este último desgosto pode se externar por lágrimas; os dois primeiros ultrapassam em muito qualquer meio possível de expressão”. Aqui fica claro o quão difícil é se expressar, adequada e felizmente sobre o que é realmente importante.

Inocentes sim, mas jamais ingênuos de nos dizer inocentes. Não obstante ainda criamos nossas ficções. E chamamos isto arte. Talvez tenhamos apenas de ficar de olho no tamanho de nosso histrião, o alimentemos com cuidado, saibamos o métron que nos cabe na farsa que representamos. Ou calemos. Depois disso só falta mandar um abraço a minha amiga [esfinge] Lúcia, te adoro.

.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A Crônica de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

* Nota do Editor: a partir da próxima edição, os textos de Jaime Medeiros Jr. estarão sendo publicados sob o título de Prosa Ligeira.


Anúncios



junho 2010
S T Q Q S S D
« maio   jul »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930  

Categorias

Blog Stats

  • 712.922 hits
Follow Palavraria – Livros & Cafés on WordPress.com
Anúncios

%d blogueiros gostam disto: