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Prosa ligeira – Jaime Medeiros Jr: uma cantilena…

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Uma cantilena ou um texto frouxo que se quer dizer, por Jaime Medeiros Jr.

fôssemos pensar
das laranjas o gosto
comeríamos pouco doutras coisas
e por fim
diríamos palavras que não se comem
e que nada sabem do que nos toca a língua


Tocar o mundo com nossas palavras parece impossível. Imaginar que saibamos algo em nossa experiência, que possa ter o numen por objeto, e não o fenômeno, talvez seja só vã esperança. Então, como viver em meio aos outros sem aceitar que a vida é ilusão e nossos diálogos uma conversa de doidos?

Nasci de pai e mãe. Sobrevivi ao canal de parto e às intempéries dos tempos do início. Superei a infância e a adolescência. Estudei. Tomei ciência da língua. Trabalho. Retomo a língua, agora não mais como um instrumento de investigação das coisas, mas como coisa, coisa por demais minha e que aqui te ofereço em sacrifício. Coisa que fabrico em pequenos sortilégios.

Agora é só administrar o presente. Impor-se a tarefa de costurar os retalhos. E não se esconder embaixo da estória que resolveste contar. Sei que em mim me caibo, mas quanto tráfego, quanto sim com vontade de dizer não. Quanta imprecisão no me dizer.

Hoje, flores no caixão de minha avó. Palavras, aos montes, de pintar o que era com o que deveria ter sido. Palavras de confiança impotentes ante o abismo. Nem tudo é circo, algo cala, se pôs tampa sobre a existência de um corpo que se desfaz. Assim se o guarda junto aos ossos da família. Tentando se ocultar do medo que dá ao ter de se enfrentar o que não se sabe.

Depois, um fio condutor feito de histórias próprias narradas e incentivadas para que o sejam e que faz risos nos rostos de meninos e meninas da periferia de São Paulo. E mais uma lágrima, antes de apagar o que se vê, insiste em se interpor aqui entre eu e você. Entre nós, que nos acostumamos a habitar o espaço exíguo das nossas expectativas e onde, no fim do dia, ainda há de se adormecer. [Obrigado amigo Canellas, sempre é bom te ver. Brasileiros do dia 24/06/10, rede Globo]

Era uma vez um menino, ou noutra versão da história um pequeno jacaré, que ao ver a luz da lua refletida sobre as águas da lagoa, se apaixona por/quer aquela imagem. Quando tenta tocar/comer aquela luz não consegue, a luz sempre está um pouco mais além. O fim da história todos podem já supor, um se afoga, o outro engole água de montão e logo descobre, se ilumina, luz mata ou nos faz viver.

Seria interessante visitarmos agora o meu amigo Marcos Fernando Kirst, que tão bem sabe falar de fantasmas, que suas palavras parecem capazes de nos fazer tocá-los: A imaginária presença entre eles do já falecido avô do avô e do ainda não nascido neto tornou-se, por um instante, como que real em seu pensamento, e impressionou-se com os fantasmas que criava. Saltava assim, desordenadamente, de uma imagem a outra, naquela atenção dispersa, própria de quem decide libertar a mente para vagar sem rumo. Falava o avô e ele sentia prazer em compartilhar a cuia do chimarrão e nada fazendo senão ouvindo e voando. Sorvia ensimesmado o mate escutando o avô fazer prenúncios de chuva e acompanhava o passeio da cuia de mão em mão entre todos os presentes, imaginários e reais, àquele surreal encontro. Via o seu futuro neto recusando a cuia que lhe oferecia, pois era ainda muito jovem para apreciar a água na temperatura que agradava ao avô do avô. Largava-se ao devaneio com o mesmo torpor de quem se deixa embriagar por uma sucessão de cálices de vinho. Não mais discernia as palavras do avô; apenas embalava-se ao som contínuo e abafado do timbre forte de sua voz e se perdia cada vez mais na loucura que engendrava naquela onírica tarde de feriado, invocando fantasmas passados e vindouros. (Dois passos antes da esquina, Marcos Fernando Kirst, Ed. AGE).

Aqui, então, a gente chega a se desconstituir, a se desinformar. E pondo-se em um ponto a gente se infla de considerações quanto ao trajeto a ser feito. E se traça o curso a ser percorrido, feito de infinitos, intensivo e extensivo, indo-se além do que se pode resolver. E como já acusava o cusano, mesmo que te pareça estares indo por um caminho reto, ele pode entender que tudo, mas tudo mesmo era só um arco desta circunferência infinda, onde o centro pode ser você.


fôssemos pensar
das laranjas o gosto
comeríamos pouco doutras coisas
e por fim
diríamos palavras que não se come [um deslize –
com consciência donde se está]
e que nada sabem do que nos toca a língua.

.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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5 Responses to “Prosa ligeira – Jaime Medeiros Jr: uma cantilena…”


  1. 1 CAROLINA STUDART
    16 de fevereiro de 2011 às 14:52

    gostei muito. gostaria de saber também se um poema que fala de saudade é seu.Sou juíza de direito e gosto tanto de livros de direito quanto de livros de poesias, cronicas e contos.Ante -sala está disponivel nas livrarias?
    atenciosamente
    Ana Carolina Monte Studart Gurgel

  2. 2 Vera Lúcia Remedi Pereira
    11 de julho de 2010 às 20:14

    Caro Jayme

    Perdemos contato, agora estou morando em São Paulo, mas guardo com carinho a lembrança de nossos encontros no 512.
    Parabéns pelo belo trabalho e pelo uso mágico das palavra.

    Abraço

    Vera Lúcia

  3. 3 Marcos Kirst
    8 de julho de 2010 às 15:25

    Carissimo Jaime
    Teus textos nessas profundas prosas ligeiras estão a cada linha por ti ligeirada mais interessantes e atraentes. Obrigado, aliás, pela gentil e generosa alusão a meu texto em excerto. Não sabia que meus fantasmas te haviam inspirado.
    Abraços e boas musas o inspirem.

  4. 4 lucia ritzel
    4 de julho de 2010 às 19:17

    Lindo, lindo, amigo. Agora passo aqui sempre! Beijo

  5. 5 Barreto
    30 de junho de 2010 às 10:56

    Bom. MUUUIIITO bom, meu amigo Jayme. Não te sabia prosa/dor. Arquiteto de imagens a mostrar aos engenheiros da palavra que ela, apesar de em si, bela, carece de mãos delicadas para tecer tênues e cortantes paisagens. Com a leveza sempre a/fiada do belo, este artesanato infinito onde a palavra (quase) tudo pode. Do silêncio que fala, ao grito que silencia. E cala…
    Abração, Jayme. Nos vemos pelos bares e saraus da vida…


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