Arquivo para 2 de julho de 2010

02
jul
10

Aconteceu na Palavraria: lançamento do livro Moinhos de Sangue, de Ana Klein

Quarta, 30, aconteceu na Palavraria o lançamento do romance Moinhos de Sangue, da escritora Ana Klein. Fotos do evento.

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02
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A crônica do Ademir Furtado: A cultura da burrice

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A Cultura da Burrice, por Ademir Furtado

No texto do mês passado eu falei sobre um livro que caiu em minhas mãos por acaso, e vislumbrei a possibilidade de voltar a falar sobre ele. E aqui estou novamente, pois seria injusto dedicar apenas três linhas a um livro tão interessante. Também mencionei a sintonia entre uma das partes e o tema do qual me ocupava. Mas, ao me debruçar sobre a obra com mais cuidado, outro item me atraiu para rumos diferentes. Só para lembrar, trata-se de “Não contem com o fim do livro”, um bate-papo entre Umberto Eco e Jean Claude-Carriere, intermediado por Jean-Philippe de Tonnac. E o trecho responsável por me desviar do caminho anterior se chama “O elogio da burrice”.

De início, pode parecer estranho a estultícia despertar o interesse entusiasmado de dois grandes nomes da Cultura Ocidental. Mas, eles se justificam. A dificuldade de entendimento não é um entrave na vida da humanidade. Ao contrário, ela gerou obras capitais. E os dois escritores não perdem a oportunidade de fazer uma lista enorme, não só das sandices proferidas por pessoas de algum relevo na história do mundo, como também dos livros germinados na aridez da palurdice. A burrice, segundo eles, é muito mais fecunda que a inteligência, porque produz mais material para reflexão. As idiotices são muito mais reveladoras do espírito da época porque refletem os valores aceitos como normais.

Bastante ilustrativa e bem humorada é a distinção feita entre imbecilidade e estupidez.  Marca registrada do imbecil é dizer a coisa errada no momento inoportuno. É o eterno protagonista de gafes, embora suas tolices possam ter até algum fundamento lógico. Portanto, a imbecilidade é uma inabilidade social. Já a estupidez é de natureza lógica. O estúpido não consegue raciocinar direito, suas patranhas são sempre desencontradas. Porém, uma característica desse último é a sinceridade em bravatear sua inépcia de maneira altissonante, sempre que houver uma oportunidade. Esse aspecto levou a uma definição importante: “A burrice é uma forma de administrar a estupidez com orgulho e assiduidade”

Sob o efeito de tiradas tão espirituosas, a gente se põe a matutar sobre outras formas corriqueiras de manifestação de nescidade. Uma delas é a confusão geral entre conhecimento e informação. A pressa em mandar um recado urgente e ser lembrado a qualquer custo deve ser o responsável por essa falta de discernimento. Um exemplo muito comum nos dias de hoje. Um sujeito sofre de incurável preguiça mental, mas deseja ardentemente parecer interessante no seu perfil no Orkut ou no Facebook. Sem hesitar, ele recorre ao Google, digita uma palavra mágica, e um mundo de janelas se abre no horizonte. De súbito, pelas páginas virtuais desse fantástico universo se espalha uma incrível coleção de jericadas com embalagem de erudição, prontas para serem recicladas.  E os tópicos mais valorizados são os poemas e frases atribuídos a escritores famosos. Nesse caso, a simples folheada de uma obra autêntica do autor em questão seria o suficiente para duvidar da suposta autoria. Mas, isso é importante? O texto é super legal e bem adequado para ostentar um pouco de cultura. O único problema é que cultura não significa necessariamente bom desempenho do intelecto, e essa atitude só escancara um nível lamentável de ignorância.

Outra demonstração de indigência intelectual encontrada atualmente é o gosto por POLÊMICA. Não, não estou me referindo à troca de idéias, ao antagonismo acalorado de pontos de vista. É ao vocábulo mesmo. Essa palavra tão banalizada, sobretudo na mídia, para classificar qualquer bate-boca mais exaltado. Uma dessas celebridades instantâneas, cuja única atividade é ser famosa, divulga uma bizarrice de suas preferências pessoais, pronto, algum órgão de imprensa já corre a chamar o público para palpitar sobre o assunto. E aí começa um desfile patético de asneiras modernas e preconceitos arcaicos. Uma telenovela, numa evidente estratégia para atingir maior número de consumidores dos produtos que divulga, coloca em debate uma situação supostamente de importância coletiva. É o bastante para que se veja nos principais veículos de comunicação o acúmulo de artigos com pretensões de enfoque original, esquartejando o assunto em pedaços mais fáceis de assimilar, onde o raciocínio não vai além dos clichês do senso comum enfeitados com retórica cientifica.

E por falar em telenovelas, esse é indiscutivelmente o terreno mais fértil para a propagação da toleima. Não há necessidade de se ligar um aparelho de tv para tomar conhecimento das peripécias das personagens televisivas, pois os jornais apresentam diariamente o resumo das próximas cenas, com o mesmo destaque de uma votação no Congresso Nacional. E para quem não lê os matutinos, basta entrar no ambiente de trabalho que as colegas se encarregam de atualizar as novidades. Eu, por exemplo, sou um noveleiro assim como fumante. Um exame do meu pulmão provavelmente detecte sinais de intoxicação, mesmo sem eu jamais ter posto um cigarro na boca, só por circular no mesmo espaço com tabagistas irresponsáveis. Com a mesma paciência e resignação suporto os comentários diários dos capítulos novelescos. Como o suplício é inevitável aproveito, em compensação, para refletir sobre alguns pontos.  E o que mais chama atenção é a superficialidade na condução dos enredos. As tramas se limitam a mostrar pura e simplesmente comportamentos individuais, determinados por idiossincrasias, preferências pessoais, manias em geral. Jamais uma atitude é tomada num contexto de tensões sociais, ou dúvidas existenciais. Com isso, os bons e os maus são logo de início bem definidos. E essa visão maniqueísta indica muito bem o nível de compreensão exigido para o acompanhamento da história.

Até aí nada demais, pois lixo cultural sempre existiu, até na Grécia clássica, quanto mais numa sociedade globalizada. Espantoso mesmo é a voracidade da população para engolir tanta baboseira. E mais ainda, a eficiência com que a sociedade é teleguiada até nos questionamentos mais significativos, a ponto de se permitir aboiar por polemículas inúteis.

Alguém poderá argumentar que estas digressões estão com quatro décadas de atraso, pois a televisão despeja nos lares brasileiros várias toneladas de dejetos culturais todos os dias, há mais de quarenta anos. E eu concordaria, com uma ressalva. A imprensa e os acadêmicos se deixaram soterrar pela avalanche há menos tempo. E encerro esta ladainha com a sugestão oferecida por Eco-Carrière, quando dizem que as idiotices são o espelho de uma época. Essa afasia generalizada pode não decretar o fim do livro, mas certamente empobrece muito a qualidade da leitura.

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Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

As crônicas de Ademir Furtado são publicadas neste blog mensalmente nas sextas-feiras.




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