Arquivo para 14 de julho de 2010

14
jul
10

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Bright Star

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Bright Star de Jane Campion, por Jaime Medeiros

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Revi Brilho de uma paixão. Filme de Jane Campion sobre o poeta John Keats. Conta-se aqui a história do amor de Keats e Francis Fanny Brawne. O filme nos leva vagarosamente a história desse amor vivido em pleno romantismo inglês. Saio pensando, que época esquisita para se amar. Num segundo momento repenso, que forma esquisita de se sentir. Talvez este amor esquisito [onde se escolhe alguém para se adorar], seja muito mais um mentar esquizo do que um problema de época.

Algumas falas que esclarecem muito. Keats diz a Frances, mais ou menos assim: não tenho certeza dos meus sentimentos quanto às mulheres, desconfio deles. Isto depois de se confessar atraído por ela. Logo depois ele tenta lhe explicar como ler um poema: é como se faz ao entrar em um lago, não se pensa tanto em nadar para atingir a outra margem, e sim, o que interessa é sentir e brincar em suas águas, comprazer-se de estar ali. Ler [entender] o poema para um romântico é menos interpretação e mais se deixar ir com ele.

Keats aqui está diante daquele doce embaraço, que acena com mistérios a quem os queira deslindar. É esse desconforto que promete, pois tudo é só promessa, só se alcança o furor divino enquanto não se toca, mas enquanto se almeja tocar. Trilhar caminho é mais importante que chegar a algum lugar.  Se está, por certo, dentro do âmbito do empirismo inglês, mas o experimento que aqui se faz, não participa de um meio controlável, e tampouco é reprodutível. Pois aqui, o que se quer experimentar, é justamente o que se alça, o que não se pode controlar, feito engenhosidade, a engenhosidade dos interstícios, a engenhosidade dos sonhos, que é capaz de criar um mundo à parte. Onde só eu e você possamos habitar.

O que se me dá a esta altura, é que talvez tenhamos passado de uma postura invocatória (um rogo) a uma evocação (um lembrar), quando resolvemos querer nos entregar aos citados mistérios do amor. Mudança compatível com o tamanho de nossas perdas, pois já não podemos crer nos deuses, mas certamente conseguimos ainda lembrar daqueles que assim, como deuses, queriam viver. E assim se amplia o espaço reservado àquilo que em português bem podemos chamar saudade, que é um sentir falta, que hoje muitas vezes já é um sentir falta não sei bem de que.

Se o romantismo leva inexoravelmente ao romper dos vasos. Pois um deus não se comprime assim como um gênio dentro de uma garrafa. Contudo ali ainda se tinha uma direção, pois mesmo que por um breve instante, inda se partilhava uma visão, se via pra além dos fatos, tinha-se algo porque viver. Hoje já não significamos mais nada, trocamos os ritos por arranjos, vivemos só de memória e com um medo tremendo de nos esquecer.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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