28
jul
10

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Nós e as cascas

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Nós e as cascas, por Jaime Medeiros Jr.

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Li três livros do rabino Nilton Bonder, lá pelos idos de 80. A cabala da comida, A cabala do dinheiro, A cabala da inveja. O primeiro tenta nos esclarecer os preceitos judaicos quanto ao ato de comer, e o como estes se ligam à economia do universo. Lembro: não ingerir cascas, reter tão somente as essências daquilo que comemos, desprezar o duro, e reter o tenro.

Hoje quase nada mais retenho daquele livrinho (o diminutivo aqui está como signo de carinho, e não como sinal de desvalorização). Contudo algo permanece, talvez já sem os invólucros do certo, do reprodutível. Mas tão somente como este calor incerto, fruto da ingesta e da assimilação do que não se é.


À parte querermos ou não eliminar as cascas, retemos, nossos intestinos retém, só aquilo que é suficientemente “tenro” e assimilável. Descartamos as fibras.

Também nos meados de 80, li um trecho de um livro Marie-Luise Von Franz [que aqui cito de memória], que diz ser preciso entender: o yin não é um aspecto do feminino, e o yang do masculino. E sim, na verdade, o feminino é que é um aspecto, uma manifestação do Yin e o masculino um aspecto, uma manifestação do Yang. Esta pequena inversão na ordem das coisas foi o suficiente para que se produzisse este vazio sem cascas onde pensar o mundo das contingências que nos foram dadas.

Pensemos: mesmo antes do palco, da cena, o ator é. No palco ele re-presenta o que se lhe destina, que já traz em si o desenho do real que se nos apresenta. E deste esboço, que obrigatoriamente deveremos aceitar, acabamos por construir o passado, a história que só sabemos porque nos contaram os ancestrais. O palco é um locus que poderíamos colocar junto à periferia do circulo [a circunferência], periferia onde se encontra tudo enquanto manifesto, onde falamos de tempo passado e tempo futuro. Mas toda periferia é simples projeção do ponto central, onde já não há história a se narrar, mas é tudo e sempre. É o tenro em tudo, que se conforma e que conforta, e que por fim se entrega, e se dá, pois é o único alimento que existe, o único animal presente no sacrifício. Portanto a cena é o tenro do ator e suas cascas.

Tá, tá, tá. Tudo muito legal. Poderia você me dizer agora: mas se formos pensar assim, por conseqüência, não há de se ter também, por sua vez, o tenro nas cascas? O que cabe às cascas dentro da economia do universo?

Normatização

o árbitro é a lei

a justiça o arbítrio

as partes são a causa

o justo, quem se conforma;

E assim se fez o drama. Contudo, há um outro verso que bem caberia lembrar agora. Superarei toda a indiferença que me traz o diferente? Talvez devêssemos lembrar que quando falamos de cascas que se eliminam, isso é factível ao falarmos de fisiologia humana, mas não cabe ao universo eliminar nada, pois aqui já não temos um lá fora onde deixar o que não nos convém. Aqui já não temos um além? Sendo assim, tudo, mas tudo mesmo, é um só tenro sem cascas.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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1 Response to “A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Nós e as cascas”


  1. 1 José eduardo Degrazia
    28 de julho de 2010 às 11:01

    Amigo Jaime,tua prosa minimalista é comprometida com a tua poesia, um mergulho filosófico nas formas reais e imaginárias do ser humano; um comprometimento em desvendar nuances geométricas de sentido, um desvelar, um revelar: tratar a matéria da palavra como se trata um fruto com seu sumo, sua polpa e sua casca. Abraço. Degrazia


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