Arquivo para 6 de agosto de 2010

06
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A crônica do Ademir Furtado: A falta que faz um herói

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A falta que faz um herói, por Ademir Furtado

Na minha infância não tinha super-herói. Não estou falando de um pai super-protetor, um tio malucão, ou um irmão mais velho metido a sabe-tudo. Refiro-me a essa legião de entidades maravilhosas onde as crianças se refugiam do convívio dos adultos. Super-homem, Batman, Homem-aranha, nada disso me empolgava. E segui, por vários anos ainda, desacompanhado de qualquer um desses semideuses. Nunca fui um adolescente deslumbrado por nenhuma banda de rock, nenhum astro pop. Minha idolatria se limitava à curiosidade por alguma nova descoberta, mas sem muito fanatismo. Tive uma caída pelo Raul Seixas, de quem sabia quase todas as letras de cor; depois, pelo Chico Buarque, onde, mesmo sendo garoto, eu vislumbrava o humor e a irreverência. Mas não era por isso, porque na época eu nem sabia o significado da palavra irreverência. Talvez fosse apenas intuição.

Por outro lado, minha devoção era toda consagrada ao Super Pateta, a única figura dos gibis pela qual eu me deslocava até a banca de revista e gastava o troco da matinê de domingo. Da mesma maneira, não perdia um só episódio das aventuras de Maxwell Smart, o agente 86, o maior paspalho de todos os tempos a ocupar um cargo de detetive. Ainda hoje me impressiona essa antiga preferência pelos patetas.

Meu interesse por aventuras fictícias despertou um pouco mais tarde. Quando me dei conta do atraso, pulei a etapa dos intrépidos mascarados e fui, já na adolescência, buscar a companhia de gente mais verossímil. E uma das primeiras criaturas a me aparecer foi o Aliocha Karamazov. Como me compadeci do desespero do coitado, a dúvida quanto à inocência do irmão querido, misturada com a dor pelo assassinato do pai. Mais adiante, viajei por terras distantes atrás de Philip Carey e sua servidão quase desumana aos caprichos da amada Mildred. Cavalguei pela Espanha ao lado de D. Quixote, sempre na luta inútil contra inimigos inexistentes, e fui aportar a uma ilha desconhecida na embarcação de Robson Crusoé, naufragado no desespero de recomeçar uma existência fora de todos os parâmetros anteriores.

Assim, eu descobria um universo novo, habitado por pessoas inseguras, atormentadas, dilaceradas por dúvidas existenciais, muito distante das fantasias juvenis delimitadas por mocinhos e bandidos. Depois, já em terras brasileiras, outras amizades surgiram: Brás Cubas e o vazio de uma existência medíocre; Riobaldo e a eterna dúvida sobre sua própria natureza. Todos eles indivíduos angustiados e impotentes para superar os condicionamentos a que foram submetidos.

A intensa convivência com esses personagens me deixou mais resignado com as fragilidades humanas. Por conseguinte, nem preciso me armar de coragem para andar na rua sem o uniforme da invencibilidade. Às vezes, quando tenho pressa, até seria interessante me transformar no Nacional Kid e sair voando, pelo menos para evitar congestionamentos de trânsito. Mas, tenho de aceitar minha condição de humano limitado e me movimentar caminhando, ou, no máximo, no volante de um carro sem nenhum recurso extraordinário, nem de longe parecido com o do homem morcego.

Deve-se considerar a importância do super-herói como gerador de processos cognitivos durante o período de estruturação da psique, elaborando um sistema de signos com os quais os infantes vão se nortear pelo resto da vida. Como são representações de força descomunal, invencíveis, inspiram ousadia para enfrentar as adversidades futuras. Nos estágios posteriores, comumente chamados de maturidade, esses heróis são substituídos por um time de futebol, uma religião, uma profissão, um conjunto de valores morais, qualquer coisa, em fim, capaz de indicar algum rumo, seja lá qual for.  E assim os adultos se acomodam com facilidade em papéis confortáveis, distintivos de identidade no meio social. Um exemplar chefe de família, sempre preocupado com proteção dos rebentos; um empresário inovador, destinado a abrir novos horizontes para o desenvolvimento econômico de sua comunidade; ou, ainda, um líder espiritual, cuja existência se dedica a conduzir o seu rebanho para o caminho da salvação.

Como já disse, meus ídolos não eram os mais recomendados para uma introjeção saudável. O Super-pateta seguidamente se estatelava no chão ao acabar o super-amendoim no meio de um vôo; o Max, muitas vezes, perseguia a própria sombra pensando se tratar de um agente da Kaos; Dom Raulzito morreu de cirrose, aos 44 anos, deixando uma multidão de fãs na orfandade. Só restou o Chico. E esse virou escritor.

Com esses referenciais, o apelo à palavra escrita pareceu o meio mais viável para ir em busca do tempo perdido. Na carência de outros recursos, tomei gosto por essa brincadeira de tecer espaços irreais, povoados por habitantes imaginários. Mas fui buscar os modelos naquelas pessoas mortificadas pelas necessidades vitais, enredadas em novelos de dúvidas e inseguranças.  Ainda me faltam os super-poderes para dominar as técnicas da criação e abater os vilões mais traiçoeiros, como as frases feitas, o lugar comum e os clichês em geral. Nada que uma disposição heróica não supere. Quem sabe um dia eu adquira a capacidade de, com um simples piscar de olhos, gerar uma obra perfeita. Mas aí, provavelmente, vou perder a vontade de escrever. Essa pretensão de recriar tudo é uma característica de quem não consegue andar entre os mortais com a desenvoltura daqueles seres indestrutíveis, cheios de vigor e bravura, constitutivos do universo infantil.  É uma obsessão de quem precisa forjar seus próprios heróis.

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Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

As crônicas de Ademir Furtado são publicadas neste blog mensalmente nas sextas-feiras.

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