Arquivo para 11 de agosto de 2010

11
ago
10

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Más allá

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Más Allá, por Jaime Medeiros Jr.

Entrei, sentei, fechei os olhos, estava meio cansado. De repente perdi a noção do que me seqüestrava a atenção. E a realidade passou a ser apenas aquele aparato sonoro a meia distância de mim e algum lugar. Estava bom ficar ali, assim, se esquivando o mais possível das formas. Pode-se dizer que havia um descanso nisso. Uma economia de propósitos. Um desacelerar de desejos.

O lugar estava cheio, ia levar um tempo até que alguém me notasse, e quisesse interagir comigo. Segui nesta estrada sem cores. Quanto mais distante, mais rumor e menos fala. Quando em vez alguns passos traziam um comentário, uma risada, uma hipótese inimaginável [pois descobri que o velocino está ali na fazenda dos meus parentes de Cuiabá].


Aqui se esvai o cansaço e se acende uma idéia. O que é o belo, quando já não consigo enxergar? O que é a beleza no mundo dos cegos? E uma pergunta que me parecia pertinente: Será que o belo que se atinge através da cegueira é menos falso que o belo do nosso olhar?

Senhor, o que deseja? Abro os olhos e vejo um moço portando um meio-sorriso de ofício nos lábios. Entendo a deixa e peço uma torrada e um guaraná.

Uma conversa nos extremos da funcionalidade. Vejo um moço, e aqui não me interessa se ele tem esposa ou filhos, se torce ou não pelo grêmio, se acredita ou não na santíssima trindade. O que interessa é que nossos propósitos convergem. Quero uma torrada pela qual posso pagar. Ele trabalha e quer ganhar. Tudo isso feito de um só olhar.

Pero despacito llegamos al punto. Parece que esse olhar está cheio de uma funcionalidade, que no mira más allá. Vislumbramos somente o que nos propomos olhar. Portanto aquela cegueira que se pensava a pouco, tendente a verdade, a não falsidade, talvez seja apenas uma construção feita da minha total incompreensão das convenções da cegueira. Portanto o fechar os olhos nos sirva mais como um remanso ao largo das convenções. E talvez o que queira mesmo o cego seja abrir os olhos e ver o mundo. Uma visão pra além das convenções em que habita.

É bem possível que tenhamos nos acostumado a tudo, e esquecido o jeito como nos olha um recém-nascido, cheio de sustos e que acredita na eloqüência de seu sorriso que nos faz amar. Talvez o que ainda se nos permita, quando em vez, é perceber, que este algo que está más allá, apesar de estar em todo o lugar, é o único e verdadeiro belo a se admirar.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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11
ago
10

Aconteceu na Palavraria: lançamento do livro Trajetórias: histórias de vida em educação popular

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Dia 7, sábado, a professora Jussara Loch e doze alunos do curso de Pedagogia com ênfase em Educação Popular, habilitação em Anos Iniciais/EJA, da Pucrs autografaram na Palavraria o livro Trajetórias: histórias de vida em educação popular. Fotos do evento.

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