Arquivo para 19 de agosto de 2010

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Palavraria indica: Desconstruir Duchamp, livro de Affonso Romano de Sant´Anna

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Desconstruir Duchamp – arte na hora da revisão, livro de Affonso Romano de Sant´Anna. Ed. Vieira & Lent, 2003.

À venda na Palavraria – R$ 34,00

Reserve seu exemplar – palavraria@palavraria.com.br, 3268 4260
ou venha até a loja: Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim

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Diferentemente das obras que apresentam a história da arte moderna, os textos deste livro olham a arte dos últimos 150 anos não com o olhar saudoso e complacente, mas como um esforço para afastar o entulho e descortinar outros caminhos. Este livro não é “contra” a arte moderna, a vanguarda e a arte contemporânea. Isto seria por demais raso e pueril. Também não é “contra” certos autores e obras. Mas propõe uma inadiável revisão de valores sem medo de enfrentar alguns ícones que estão no altar da modernidade e da pós-modernidade. Aqui em vez da simples “opinião”, desenvolvem-se estratégias para analisar certas falácias teóricas e práticas de produtos e autores que pretendem ocupar, mesmo negando-o, o espaço da arte.

Affonso Romano de Sant´Anna nasceu em Belo Horizonte em 1937 e estudou, até o doutorado, na Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG. Nos anos de 1960 foi lecionar nos Estados Unidos (UCLA), onde participou do International Writing Program da Universidade de Iowa. A partir dos anos 1970 foi professor da PUC do Rio de Janeiro. Ministrou cursos e conferências em inúmeras universidades do Brasil e do exterior. Presidiu a Fundação Biblioteca Nacional, onde criou o Sistema Nacional de Bibliotecas e o Programa de Promoção da Leitura. Presidiu o Conselho do Centro Regional para o Fomento do Livro na América-Latina e no Caribe, e foi Secretário Geral da Associação das Bibliotecas Nacionais Ibero-Americanas. Affonso Romano de Sant’Anna é poeta, cronista, jornalista e professor. Atualmente é colunista do jornal O Globo e de outros diários.

Uma amostra:

Desconstruir Duchamp

O encurralado conceito: tudo é arte, nada é arte

Estou no Louvre diante de uma das versões do quadro de La Tour – Le tricheur (O trapaceiro). Nele, uma mulher está jogando cartas com dois homens, enquanto a criada lhe serve uma taça de vinho. Um dos jogadores, com a mão atrás da cintura, exibe para o espectador do quadro, duas cartas escondidas, que lhe darão a vitória. Este quadro é a retomada de um tema que foi magistralmente retratado antes por Caravaggio (1594), cuja exposição vi em 1999, em Roma. Só que o título, que é o mesmo, está no plural Les Tricheurs. Aqui um homem espia as cartas que uma mulher tem nas mãos, enquanto seu parceiro exibe nas mãos atrás das costas, duas cartas que lhe garantem ganhar o jogo.

Marcel Duchamp preferia jogar xadrez ao invés de cartas. Chegou a abandonar a pintura por uns 20 anos para ficar participando de campeonatos de xadrez. Sua fissura por esse jogo era tal que chegou a redesenhar-lhe as peças.

Duchamp além de jogador, foi um tricheur. Um magnífico trapaceiro. Como os personagens de Caravaggio e La Tour, teve a audácia de mostrar as cartas com que jogava e com as quais empalmaria o jogo. Como aqueles personagens, ele está virado para o público se denunciando. Basta decodificar suas “cartas”, ou seja, textos e obras.

Com efeito, o jogo está, estruturalmente, presente na obra de Duchamp e é estranho que isto não tenha sido analisado. Estranho que não se tenha visto as correlações entre o jogo e a estrutura de sua produção. Não estou me referindo ao sentido geral, que é ver a obra de arte como um grande jogo consigo mesmo, com o mercado, com o público, com os museus.Tomemos, especificamente, dois exemplos concretos: o ready-made de 1964, que é um cupom da “roleta de Monte Carlo”, do qual Duchamp se apropriou colocando seu nome; e o cheque que ele mesmo fabricou no valor de $115,00 para saldar uma dívida e que acabou virando moeda de troca verdadeira, que ele recomprou para revalorizá-la. São duas metáforas palpáveis do jogo como tema e como prática em sua obra.  Além disto, consideremos uma outra prática obsessiva de jogo, o jogo verbal que exercitava, fascinado, construindo trocadilhos. Em suas “Notas” deixou registrados 288 trocadilhos, que o divertiam. E assim, gostando cada vez mais de malabarismos mentais decidiu afastar-se dos pintores e ir trabalhar na Biblioteca de Santa Genoveva, dedicando-se, por um longo período, ao pensamento, ao logos, ao jogo dos conceitos.

No jogo de xadrez há uma situação conhecida como xeque-mate, que vem do persa xah mat.  A situação do xeque-mate é aquela em que o rei, sob ataque, já não pode fugir nem se defender. Na verdade, como diria Maurice Lever (Le sceptre et la marotte, Ed. Fayard) “o echec et mat não significa nem a morte nem a captura do rei, mas seu aprisionamento numa rede de alternativas impossíveis, que fazem do jogo de xadrez o único jogo que encontra a sua solução no insolúvel”.

Marcel Duchamp deu um xeque-mate na arte há quase cem anos. Desde então ela ficou paralisada, prisioneira, dependente de uma solução que teria que passar pela desconstrução do impasse que ele criou. Duchamp encurralou o conceito de arte da época ao convencer seu auditório, que tudo era arte, desde que alguém assim o quisesse, desde que o artista apusesse em qualquer objeto, modificado ou não, sua assinatura.  No instante em que, atônitos, seus interlocutores e, depois, as gerações vindouras, caíram neste jogo, a arte, como o Rei, ficou imobilizada num oxímoro e numa tautologia, pois se tudo é arte, nada é arte.

Duchamp, no entanto, estava, como os personagens nos quadros de La Tour e Caravaggio trapaceando e exibindo a trapaça (para quem souber ler & ver). Ele exibia isto, às vezes, cinicamente, como ao dizer que havia jogado na cara dos burgueses uma série de non-sense e eles haviam acreditado naquilo. Mas é na análise da prática teórica de Duchamp que se encontram os sinais da trapaça, que o transformam antropologicamente no grande trickster da arte moderna.

Lacan tem uma análise do conto de Poe que passou a ser conhecido com o título de “A carta roubada”. Trata-se de uma estória onde, como no jogo de xadrez, existe a personagem de uma rainha e a de um rei. E a trama se desenrola em torno de uma carta comprometedora, que parece oculta e, no entanto, está o tempo todo à vista sobre a mesa do rei. Por que essa carta tão à vista não é vista? Lacan, curiosamente, usa os mesmos termos que estamos sublinhando e nos fala da “trapaça”, do comportamento do “avestruz” e do gesto do “ilusionista”, o qual faz na exibição das cartas ao público seu primeiro e ostensivo gesto de engano. E a suprema arte do ilusionista é “fazer-nos um ser de sua ficção”.  Exatamente como ocorreu naquela lenda do “rei nu” de Andersen, reincidentemente lembrada em relação à arte de nosso tempo.

Sintomaticamente, como se estivesse dando mais dados semiológicos para nossa interpretação, Duchamp, em 1958, participou da exposição “O desenho na arte mágica”, com sua Boite en valise, imitando intencionalmente as valises dos mágicos.

Ilusionista conceitual, Duchamp logrou convencer a muitos que é arte tudo o que alguém diz que é arte. E mais: que se colocarmos uma roda de bicicleta ou um urinol num museu isto passa a ser arte. E assim se passaram quase cem anos em que muitas pessoas olharam esses objetos quase com êxtase. Pois, no picadeiro dos mal entendidos, lamento informar ao distinto público que aquela roda de bicicleta é simplesmente uma roda de bicicleta, e que aquele famoso urinol é um urinol mesmo. A carta está na mesa (para quem quiser ler).

A chamada pós-modernidade falou muito em “desconstrutivismo” e tachou Duchamp de “descontrutivista”. Então, usando o mesmo insidioso veneno como remédio (similia similibus curantur) lhes digo: é  necessário desconstruir Duchamp.

A melhor homenagem que podemos fazer aos mestres contestadores de ontem, é contestá-los hoje. Não para que a arte volte ao passado, mas para que ela se possibilite um futuro.

4 de maio de 2002

Affonso Romano de Sant´Anna

(in Desconstruir Duchamp, págs. 76-78)

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