Arquivo para 25 de agosto de 2010

25
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Trânsitos fortes de Netuno

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Trânsitos fortes de Netuno, por Jaime Medeiros Jr.

O senhor das encruzilhadas. O senhor das escolhas. E não te enganes não, o senhor dos modelos, te reconhece e te descobre por trás dos olhos de um espelho.

Não te preocupes. Ando assim, com uns trânsitos fortes de Netuno. Por fim espero que tudo ainda se encaixe.

Ontem lembrei. Depois de ter lido os livros sobre mitologia grega do professor Junito Brandão, me encantei com episódio de Polifemo e Odisseu, um dos vários que acontecem durante a sua volta para casa. Chegando à caverna do cíclope, Odisseu e doze de seus nautas encontram muito queijo e ovelhas, aguardam o dono, que por certo deveria demonstrar-lhes alguma hospitalidade. Se enganam. O ciclope os descobre e pretende devorá-los. Odisseu usando de sua astúcia habitual acaba por vazar o único olho do ciclope. Conseguindo deixar a caverna. Quando os outros ciclopes querem ajudar Polifemo o questionam se alguém tinha lhe feito algum mal, ele responde, “Ninguém”, pois assim se lhe tinha apresentado Odisseu. A história é curiosa. Pra mim ganhou inda um tanto a mais de importância quando consultei a etimologia de Polifemo [Dicionário Mítico-Etimológico –Junito Brandão – Vozes], e descobri significar “o famoso”, o cheio de fama. Homero então está a nos dizer que é ninguém quem fura o único olho da fama e a faz cega. Muda-se da visão de um único olho, sem profundidade, para a cegueira. Resta saber se no universo homérico não enxergar, ser cego, se alinha com o ignorar, ou com ver verdadeiramente, ver o que realmente importa. Lembremos, por exemplo, que quem fala no mundo inferior a Odisseu e com quem ele realmente queria falar, Tirésias, também é cego e sábio. Mesmo Homero, acreditando-se na sua existência, é cego. Deste modo talvez devêssemos entender o ato de Odisseu como terapêutico.

Noutro nível poderíamos dizer que aquilo que a fama e o reconhecimento público geram de acomodação e superficialidade é vencido somente pelo joão-ninguém que nos são as novas ideias. E se quisermos interpretar talvez possamos ir derramando indefinidamente sabedorias infinitas sobre este único episódio da Odisséia. Onde iremos parar assim o fazendo, não sei. Mas isto é o que se propõe a fazer a tradição com aquilo que ela convencionou chamar clássicos.

Ontem acabei o quinto passeio pelos bosques da ficção [Eco]. Onde o autor demonstra que apesar da possibilidade de infindas interpretações de um texto, estas interpretações têm de obedecer certas regras, certos limites para serem verdadeiras. A principal delas é que não podemos contradizer à história. Se eu teimar em dizer que Romeu e Julieta não morreram, se casaram e foram felizes por um tempo e que depois o seu casamento caiu na mesmice, a minha interpretação pode ser muito perspicaz, mas não é verdadeira. No final deste quinto passeio Eco lembra Heráclito, “o Senhor cujo o oráculo está em Delfos não fala nem esconde, mas indica através de sinais”, o conhecimento que buscamos é ilimitado porque assume a forma de uma contínua interrogação.

Polifemo é filho de Netuno/Poséidon. E no final daquele episodio roga ao pai para que se vingue por ele. O que torna o retorno de Odisseu muito difícil. Várias escalas, muitos perigos a ser enfrentados para apenas e tão somente tornar à origem.

De Polifemo temos também outro episódio. Quando se apaixonou pela bela ninfa Galatéia, que o desprezou, visto estar caída de amores por Ácis filho de Pan. Muitos afirmam que isto teria levado a que o ciclope num arroubo de ciúmes matasse Ácis, esmigalhando-o com uma pedra. Teócrito insiste que não, e que ele teria resolvido se dedicar a arte das musas. Neste ponto sempre quis uma fonte que esclarecesse qual é o primeiro destes dois episódios. A lógica nos indicaria que o de Galatéia deveria ser o primeiro, afinal de contas aqui não se cita o fato de sua cegueira. Mas nem tudo é logico em um mito, quem nos garante que Polifemo por um artifício dos deuses não tenha recuperado a visão. O que me fascina aqui é acreditar que, se o relato de Galatéia for posterior ao da Odisséia e em admitindo-se o final de Teócrito, a cegueira possa ter sido um bom remédio para o nosso ciclope. Mas, isto tudo, talvez não passe de uma mera superinterpretação, aposta à história pelo hábito de ofício de um pediatra, que simpatizou com este ciclope feio e desajeitado.

Então chegamos ao ponto de desenlace e talvez devêssemos lembrar o início, de onde partimos, quando ainda nada sabíamos do caminho a ser percorrido. Agora podemos perceber, as perguntas já estavam ali, o que nos obrigou, por fim, a avançar um pouco mais neste caminho sem igual, feito desta profundez que nos espia trás o espelho.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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