Arquivo para 8 de setembro de 2010

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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: ligeiras considerações sobre os contos gauchescos…

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Ligeiras considerações sobre os contos gauchescos de Simões Lopes Neto, por Jaime Medeiros Jr.

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Foi um susto bom abrir o que até então estava fechado na prateleira. Muito se faz quando se acerca do ato e deixa-se para trás o que não era senão promessa. Postergar é um remédio incômodo, mas inevitável, quando se detém mais livros do que tempo de lê-los. Mas neste caso particular valeu a espera. Me acho mais crescido em entenderes e sofreres depois da buliçosa e natural afetação de quem mergulha no mundo dos livros.

Aqui nos aguarda o remanso desataviado de uma crença, crença simples no simples contar história, e no simples se alçar da voz simples de quem conta a história a alguém que calado nos testemunha esta voz. Voz de Blau. E Blau sempre sabe dizer. Quando está cansado, confessa: “vinha abombado da troteada”. E quando nos informa a fidelidade de um cusco, diz: “e depois de sair a porteira, nem por nada fazia cara-volta”. E quando nos conta de gente honesta e boa, diz: “E houve uma risada grande, de gente boa”.

O trabalho de linguagem, de quem domina o riscado das letras, não se desacompanha de um bem querer às coisas e às gentes de que se cerca. O que não o desobriga de dar vida mesmo à selvageria a que nos conduz o mundo, pois não é homem de dar cara-volta depois de deixar a porteira. Mata-se o boi velho para arrancar seu couro, mas depois do sangue derramado o gurizote, que inda não sabe da morte, quer fazer um carinho no boi velho, e lhe põe na boca uma fatia de “munhata”, e diz: “Tome, tabiúna ! Nó té… Nô fá bila, tabiúna !” [Come, Cabiúna ! Não quer… Não faz birra, Cabiúna !]. Morre manso o boi. Ele bem sabia puxar o carro e agora já mal puxa a si mesmo, e por fim, habituado deita a cabeça à canga, donde parte para nunca mais, agora já sem um carro de se puxar.

Inda não acabei de ler todos os Contos Gauchescos. Pois é livro que há de se comer despacito, pelas beiradas. Assimilando aos poucos tudo o que se foi, tudo o que se é e tudo que não se é e que nos vem na voz de Blau. Deixo aqui aos mais bem preparados, discutir se o modo de falar de Blau corresponde a realidade sitiante ou sitiável aqui dos pagos. E confesso, desde já, tampouco se me dá. Pois nada se me contrapõe ao verdadeiro, doce e amargo sabor deste Rio Grande, deste Gaúcho que aqui se lê inteiro e que só existe porque existe a voz de Blau.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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