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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Do arco da lira

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Do arco da lira, por Jaime Medeiros Júnior

Resolvi criar um outro espaço virtual na internet [o blog o arco da lira]. Trazia comigo algumas sombras de ideias quanto ao nome e de resto só um vasto dessaber. O que fazer para tentar construir em curto espaço de tempo um mínimo saber? A mim parecia, a grosso modo, que a lira era feita de duas partes. Uma forma arqueada e a outra feita de cordas postas em tensão sobre aquela parte arqueada. Portanto poderíamos falar de um arco da lira.

Resolvo testar a hipótese, vou ao Google e busco “partes da lira instrumento”. Nas minhas andanças por lá descubro um tanto surpreso que aquilo que até então entendia como o arco da lira era descrito como dois braços que surgem a partir de uma caixa ressonância. Também aprendi que a palavra lira no início designava toda uma família de instrumentos onde, por exemplo, poderíamos incluir a cítara. E a lira, mais propriamente dita, por ter uma caixa de ressonância pequena, era considerada um instrumento de amadores. Não devia ser tangida pelo arco [aqui entendido como vara flexível semelhante a que se usa para tocar o violino] e sim dedilhada. Xiiii, neste momento todas minhas sombras de ideias pareciam se destinar ao cesto de lixo. Mas eis que no quartel das ideias mais uma daquelas sombras se acorda. Se a lira é instrumento para se dedilhar, talvez pudéssemos de certa forma dizer que o próprio executante, o próprio eu é quem tange as cordas. E portanto, de certa forma, este seria o arco da lira.


Contudo sigamos inda um pouco mais, e nos deparemos com o mito da criação da lira. Assim descrito por René Menard: Mercúrio/Hermes inventou a lira no mesmo dia em que nasceu. “Mal saiu do seio materno, não ficou envolto nos sagrados cueiros; pelo contrário, imediatamente ultrapassou o limiar do antro sombrio. Encontrou uma tartaruga e dela se apoderou. Estava ela na estrada da gruta, arrastando-se devagar e comendo as flores do campo. Ao vê-la o filho de Júpiter alegra-se; pega-a com ambas as mãos, e volta para a sua morada, com o interessante amigo. Esvazia a escama com o cinzel de brilhante aço e arranca a vida à tartaruga. Em seguida, corta alguns caniços, na medida certa, e com eles fura o costado da tartaruga de escama de pedra; em volta estende com habilidade uma pele de boi, adapta um cabo, no qual, nos dois lados, mergulha cavilhas; em seguida, acrescenta sete cordas harmoniosas de tripa de ovelha.”

“Terminando o trabalho, ergue o delicioso instrumento, bate-o com cadência empregando o arco [o que parece contradizer aquela informação recebida acima], e a sua mão produz retumbante som. Então o deus canta improvisando harmoniosos versos, e assim como os jovens nos festins se entregam à alegria, ele também conta as entrevistas com Júpiter e a formosa Maia, sua mãe, celebra o seu nascimento ilustre, canta as companheiras da ninfa, as suas ricas moradas, os tripés e os suntuosos tanques que se encontram na gruta.” (Hino homérico).

Seguimos um pouco mais nossas andanças. E o bom Hermes deus dos viajantes talvez esteja olhando por nós. Aqui chegamos talvez à fonte primeira de todas as nossas citações, o fragmento de Heráclito: Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como de arco e lira [trad. para o espanhol: Ellos no comprenden cómo los contrarios se funden en la unidad: armonía de tensiones opuestas como la del arco y la lira]. Heráclito fala aqui do arco que dispara a flecha, que da mesma forma que a lira é somente devido a tensão de forças contrárias que manifesta todas as suas qualidades, a sua excelência, estando em harmonia em si mesmo.

Em português parece terem se consagrado dois étimos arc- . O primeiro que origina palavras com o sentido de um lugar onde se guarda algum valor [p. ex.: arca, arcano] ou que tem uma forma arqueada [p.ex: arco, arcada]. O segundo destes étimos origina palavras onde há a ideia de princípio, de origem, de primeiro [arquiteto, arcanjo, arcebispo, arquétipo].

Depois de colecionarmos todos estes pedacinhos de sabedoria está na hora alinhavá-los de modo a fazerem algum sentido. Partimos do ponto em que pensávamos poder denominar arco a parte da lira que possui uma forma arqueada, e assim parece nos autorizar o primeiro dos étimos citados. Somemos a este o significado do segundo étimo, o de origem, poderíamos tentar entender o arco da lira como a parte na estrutura da lira que por sua estabilidade e imobilidade é responsável por sustentar, tensionar e principalmente fazer ressoar o som produzido pelo tanger das cordas. O movimento, o vibrar das cordas só se torna audível pelo oco da caixa de ressonância que o acolhe e que o arco sustenta.

Hermes ao fazer de uma tartaruga a primeira lira parece ter topado com um representante animal do que é velho, antigo, sábio e prudente [a tradição]. Da parte estável, da carapaça, do escudo, da casa que este animal carrega consigo e com as tripas de uma ovelha com que faz sete cordas harmoniosas ele fez a sua lira. Aqui parece novamente estarmos a representar duas forças em tensão que, por fim, se resolvem harmonicamente na música da lira. A carapaça que em sua imobilidade faz ressoar o som das cordas que tangemos, não é senão a tradição, que como boa caixa de ressonância faz ressoar o que pulsa nas entranhas do artista. É aqui que o arco se une às primícias, à origem. Impõe padrão e direção a expressão do mais visceral artista. Aqui se instaura o diálogo entre Hermes e Apolo, que de certa forma reproduz de uma maneira mais bem comportada, a disputa travada entre Dionísio e Apolo. Aqui temos o diálogo entre técnica e arte, lá a disputa entre ordem e dissolução das formas. Para encerrarmos então esta nossa conversa, talvez seja este o momento para se resgatar aquela sombra de ideia arrojada lá em meio ao texto e tentar pô-la as claras. A lira é uma pequena e singela representação de micro [o homem] e macrocosmo [o universo], portanto o verdadeiro arco da lira está no cor de quem tange suas cordas. A lira, de certa forma, trabalha com os mesmos mistérios do caduceu, unir os dois princípios contrários, sejam eles, ou o enxofre e o mercúrio dos alquimistas, ou o fixo e o volátil, ou o seco e o úmido, ou o quente e o frio. O certo é que temos de unir estas forças antagônicas de um modo harmônico. O caduceu é mântica, a lira é música. Caracteres também, desde muito, associados à poesia.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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2 Responses to “A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Do arco da lira”


  1. 23 de setembro de 2010 às 17:54

    …inventada por Hermes, a lira tornou-se um atributo de Apolo, Deus conhecido por compartilhar com sua irmã Ártemis a perfeição no manejo do arco. Desta forma,
    teu blog apolíneo poderia igualmente chamar-se O Arco e a Lira…


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