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Precisamos falar sobre o Kevin, dica de leitura de Daniela Langer

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Precisamos falar sobre o Kevin, por Dani Langer

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Autora: Lionel Shriver
Editora: Intrínseca, 2007
464 páginas

Ser ou não ser mãe? Foi a pergunta que fez Lionel Schriver escrever o romace “Precisamos falar sobre O Kevin”, publicado no Brasil em 2007 pela editora Intrínseca, e vencedor do Orange 2005, premiação inglesa de melhor romance do ano.

Para a autora, escrever é buscar respostas: “Uso meus romances para resolver questões que não entendo e causam algum tipo de conflito. Sei que encontrei o mote da história quando me vejo em uma situação que tem dois lados e não sei para qual deles devo seguir”.

“Precisamos falar sobre O Kevin” conta a história de um adolescente que, antes de completar 16 anos, comete uma chacina no ginásio de seu colégio nos subúrbios de Nova York. O crime surpreende a comunidade: Kevin é um garoto bonito, inteligente, mimado pelo pai e admirado pelos professores.

O romance é narrado em primeira pessoa por Eva, a mãe de Kevin. Torturada pela brutalidade dos fatos, ela escreve cartas ao marido ausente, revendo e esmiuçando cada cena dos últimos 16 anos de sua vida a procura de um motivo para o comportamento do filho.

O livro discute, em primeira análise, as chacinas cometidas por adolescentes nos Estados Unidos. A lucidez e imparcialidade com que o tema é tratado bastaria para fazer de “Precisamos falar sobre O Kevin” um bom livro. Ao lado de Eva, ansiamos por encontrar uma resposta que nos faça entender o porquê da gratuidade da violência em toda uma geração. Além disso, o romance apresenta um excelente painel cultural dos Estados Unidos. Entramos na intimidade de Eva. Lemos as cartas que Eva escreve para o marido, primeiro como intrusos de sua intimidade. Quando nos damos conta, já somos destinatários, e como os personagens, ansiamos por uma explicação que nos satisfaça, seja ela verdadeira ou não.

Porém, a força de um romance não se mede pela escolha do tema, mas no resultado entre conteúdo e forma. Em “Precisamos falar sobre O Kevin”, a forma funciona como um motor, a força que nos impulsiona para a reflexão. Para Lionel, a violência não é uma linguagem articulada. Portanto, as tentativas de racionalizar o pensamento e o comportamento de Kevin serão sempre inférteis. “Acho que ele próprio não entende o que o levou a cometer o crime”, diz a autora.

Ao optar por contar a história através de cartas, Lionel deixa a narrativa livre de qualquer racionalização. Por um lado, as cartas de Eva criam empatia entre, fazendo com que compartilhemos do seu sofrimento. Porém, esse mesmo artifício cria um filtro entre o adolescente e o leitor. Nas mesmas cartas que nos aproximam de Eva, temos material suficiente para questionar: a personalidade do adolescente, construída pela mãe, é confiável?

Kevin, o filho não muito desejado, é percebido pela mãe como uma criança que já nasceu perversa. Em sua apresentação na FLIP 2010, a autora sugere a questão: “o quanto de maldade uma criança muito pequena pode ter?”.

Lionel Schriver diz que o livro a ajudou a optar entre ter ou não filhos. Nem por isso, “Precisamos falar sobre O Kevin” apontar uma resposta para os temas que propõe. Pelo contrário, ao fechar o livro, podemos fazer uma lista com muitas outras perguntas sugeridas pela narrativa.

Daniela Langer é designer. Também estuda o que lhe causa espanto na literatura e é aluna da Oficina Charles Kiefer desde 2005. Foi premiada no Concurso Osman Lins de Contos 2005. Tem textos publicados em em antologias, entre elas Inventário das delicadezas (Nova Prova, 2007) e Novos Contos Imperdíveis (Nova Prova, 2007) e Outras Mulheres (Dublinense, 2010). Escreve nos blogs Ordinariedades e Outras Mulheres.

Lionel Shriver nasceu Margaret Ann Shriver (1957, Carolina do Norte, Estados Unidos) e aos 15 anos mudou de nome. Formada e pós-graduada pela Universidade de Columbia e pelo Barnard College, nos Estados Unidos, viveu em Nairóbi (Quênia), Bangkok (Tailândia) e Belfast (Irlanda). Precisamos falar sobre o Kevin, seu oitavo romance, foi recusado por agentes literários e mais de 30 editoras, mas em 2005 ganhou o prêmio Orange, na Grã-Bretanha. Publicou ainda The female of the species, Checker and the Derailleurs, Ordinary decent criminals, Game control, A perfectly good family e O mundo pós-aniversário. Seu mais recente livro, So much for that, foi lançado em março deste ano. Vive em Londres e contribui para os jornais The Guardian, New York Times, Wall Street Journal, Financial Times e para o semanário Economist.

Veja mais sobre Lionel Shriver em ordinariedades.blogspot.com.

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