Arquivo para 6 de outubro de 2010

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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr: Mathema

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Mathema, por Jaime Medeiros Jr.

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Como não se amofinar, quando em vez, com nossos sistemas representativos? Olha só. Acabamos de levar ao poder determinado feixe de palavras, que colocamos em determinado ordenamento e esperamos atingir determinados efeitos. Esperamos que elas digam, ou melhor, esperamos que elas nos saibam dizer. Mas depois de sufragá-las, pouco resta, senão contar com a sorte e esperar que no curso de todo o processo de nos traduzir não acabem por nos trair.

Parece ser inequívoco, quanto mais adentramos o que nos institui como seres, quanto mais cavoucamos, menos realidade conseguimos delegar a estes nossos indignos representantes. Representantes de tudo aquilo que não sabemos, e que não gostaríamos muitas vezes de ser, mas que somos. Babel. Babel. Babel. Três vezes Babel. Aqui o problema que estamos a falar já não é nem só um problema de disjunção, mentira ou verdade, mas, sim, talvez o totalmente avesso, a total injunção das miríades infindáveis de referências que se confundem neste espaço que construímos na tentativa de vulgarizar o que nos coube como vida [uma experiência, uma vivência].

Por isso Hermes é o senhor das palavras. Por isso nele se encontra a ciência das coisas que nos são absolutamente fechadas. Por isso Hermes é o senhor das passagens e das encruzilhadas. Por isso na sua mathemá [conhecimento adquirido, ensinamento] -tica, dois e dois são cinco. Aqui caberia tentar lembrar algumas formas de dar trato às palavras, que tentam elucidar, explicitar, o descontrole que toda verdade, digna deste nome, implica. Mesmo neste âmbito nada é garantido, tudo acontece como um salto no escuro, como uma entrega, como um presente, como um sacrifício. Quem se sacrifica, se diminui. Mas se ele se diminui é para aumentar um fundo. E é somente porque confia neste fundo que comporta as formas, que ele conversa, que ele se converte e que ele se dá. Só o escuro é mãe do claro.

Poderíamos citar várias formas de práticas, de exercício onde as palavras nos obrigam ao descontrole. Certas formas de poesia. Onde não só o dito, mas onde também o que não se figura, diz; o koan, que é um desafio pleno ao consensual; ou em formas de oração, que nos obrigam a recordar cada vez mais o silêncio subjacente à palavra [por exemplo: o hesicasmo, grego ou russo]. Ou ainda, se preferirmos as vestes do humanismo, deveríamos entender que o saltitar, o aparente ir vir das formas, pode ser visto também a partir do meio em que tudo se dissolve em manifestações específicas de um único gênero, totalmente fora do alcance das nossas mais lídimas intenções de controle.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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