Arquivo para 20 de outubro de 2010

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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Mnemósine é mãe das musas

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Mnemósine é mãe das musas, por Jaime Medeiros Júnior

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Me deparei recentemente com uma pequena informação, posta meio que à deriva, em um  comentário ao Hino Homérico IV [hino a Hermes], que acabou por produzir certo clangor naquele nosso habitual murmurar das ideias. Mnemósine é mãe das musas. As musas produzem a inspiração à arte de todo artista [músico – música aqui deve ser entendida como qualquer arte inspirada por uma musa, o que em bom ocidentalês moderno talvez pudéssemos entender como cultura].

Mnemósine é mãe das musas. Há, possivelmente, quem venha a tentar explicar tal afirmação, colocando a produção destas senhoras dentro de uma correta perspectiva histórica. A arte pode ser vista a partir de seu tempo. Quanto o artista é filho das ideias e crenças de seu tempo? Certamente isto explica um pouco da nossa afirmação, temos que recuperar o circunstancial dos dias do tempo daquele nosso artista, sondar os registros, descer à materialidade das provas. A nossa memória também se faz desta materialidade circunstancial. Por outro lado, parece que não deveríamos reduzir a memória a esta materialidade.

Quem há de fazer um poema sem recordar? Sem trazer pai e mãe na escolha e ordenamento das suas palavras, sem lembrar cores e cheiros de sua infância. Também quanto de nosso esquecimento e evitação servem como os limites de nossa memória.

Octavio Paz em o El arco y la lira, diferencia poema e poesia, poema é a materialidade do texto em versos, que pode ou não ser visitado pela experiência daquilo que denominamos poesia. Para que fique mais claro, podemos lembrar: tanto a Odisseia quanto o livro de Empédocles foram escritos em versos, mas não por isso teremos ao ler Empédocles a mesma experiência poética como a que temos ao ler a Odisseia.

A boa e velha matrona Mnemósine é quem parece nos garantir a experiência do poético. Tanto no que toca à criação, pois não podemos fugir ao filtro das nossas lembranças. É só a acentuação ou atenuação destes conteúdos que nos permitem viver aquilo que de certa forma é a nossa memória coletiva: a linguagem. A arte, o musical ou o poético não se reduz ao mundo verbal do poema. É sim a nossa experiência que se funda, que necessita de uma linguagem, mas que nos remete para além desta mesma linguagem. Aqui muito antes do querer se expressar, há um querer bem ao jogo de perde e ganha que passamos a frequentar quando resolvemos fazer um poema e tentar fazer poesia.

É então este objeto que se ergue da materialidade verbal [o poema], a partir desta memória coletiva [linguagem] que nos remete ao terceiro ponto deste processo que Mnemósine desencadeou, processo que só termina ao se abrir para a leitura com a participação de um leitor. De certa forma devemos entender que quem lê um poema, e nele redescobre poesia, é tão ou mais autor quanto aquele que o escreveu. É ele quem por fim há de  dizer, levanta-te e anda. Do contrário, tudo seria apenas letra morta.

Octavio Paz em certa altura daquele texto nos diz coisas de um galardão ainda bem maior. Que ao seguirmos nessa nossa batida da interpretação daquela pequena assertiva [Mnemósine é mãe das Musas], podemos vir então a entender que o supremo grau da memória, não é o individual, nem o coletivo [humano]. Mas sim, o que na falta de uma outra qualquer melhor palavra, aqui iremos denominar transcendente, que é o momento em que esta experiência que chamamos poesia, parece nos fazer recordar um não sei que, um algo, ou ainda quem sabe uma saudade, algo certamente para além de toda experiência deste nosso viver normal, mas no entanto vivido e, neste momento em que chegamos ao cerne desta experiência a que queremos chamar poesia, recordado.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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