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Conversas na biblioteca, com Carla Osório: Os poetas e os caminhos

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Os poetas e os caminhos, por Carla Osório

Vendo e ouvindo o vídeo de “Cantares” publicado pela Palavraria recentemente [post de 19 de junho] me emocionei. Aquela multidão cantando um poeta que morreu durante a guerra civil espanhola, não assassinado como Federico Garcia Lorca, mas provavelmente de tristeza no exílio, poucos dias após cruzar a fronteira juntamente com milhares de espanhóis e chegar à França .

Muitos podem não saber quem é Antonio Machado, como eu não sabia até ouvir Joan Manoel Serrat, que fez um long-play (isso mesmo um vinil) inteiramente com poemas musicados. Essa é a grandeza desse Serrat e desse tal de Antonio Machado. Os cantares permanecem atuais e seguidamente me ouço dizer: “Caminante no hay camino, se hace camino al andar”.

O problema dos poetas é que eles nos acompanham e muitas vezes pedaços de seus poemas servem de ganchos para a vida. Cito alguns dos meus: “Vai, Carla, ser gauche na vida (Drummond); “Lento e bruto eu mudo, sei que vem outubro (Nei Duclós); “Todo o ex amor é um deus, nós é que perdemos a fé (Celso Gutfriend); “É a parte que te cabe deste latifúndio (João Cabral de Mello Neto ). Tem mais no meu baú imaginário, versos que fazem parte do cotidiano e que me fazem continuar.

Alguns me dão alento, outros me empurram para o mundo e não escapamos impumemente desses caras que reviram nossas entranhas e as expõem ao mundo ou que reviram as entranhas do mundo e as expõem a nós.

Antonio Machado refletiu em seus poemas uma Espanha decadente e em crise, Serrat o trouxe de volta ainda na ditadura de Franco, para revelar esse mesmo aspecto da sociedade espanhola.

“La España de charanga y pandereta,
cerrado y sacristia
de espíritu burlón y de alma quieta
há de tener su mármol y su dia,
su infalible mañana  y su poeta”.

Serrat e Antonio Machado se encontram e se complementam em momentos históricos diferentes, mas ambos souberam captar a decadência de uma era e o surgimento de outra. Ambos souberam nos dizer que o caminho não está traçado, que ao andarmos é que o construímos.

Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

As Conversas na Biblioteca, de Carla Osório, são publicadas neste blog na segunda sexta-feira de cada mês.

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