Arquivo para 19 de novembro de 2010

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A quase crônica de Nelson Safi: Os lusíadas; e os lusófonos também

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Os lusíadas; e os lusófonos também, por Nelson Safi

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Uma das grandes vantagens de escritores lusófonos é a de ler o texto em seu original, sem a interferência de um tradutor. Nada contra tradutores, graças ao seu ofício consigo ler escritores estrangeiros. Fazem um trabalho hercúleo, mas, é inegável, eventualmente não captam o que o autor realmente quis dizer. Enfim, com os lusófonos podemos constatar a beleza da nossa língua.

De início, para quem gosta de fazer um test drive, uma boa pedida é a antologia de contos “Desacordo ortográfico” (Não Editora), organizada pelo meu amigo Reginaldo Pujol Filho. Ali pode-se encontrar portugueses, obviamente, angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos e, de quebra, brasileiros. Começa com um conto do L. F. Verissimo, “Mais palavreado”, uma ótima brincadeira com o vocabulário. Tem também o Ondjaki (não me perguntem como se pronuncia esse nome), com “O cheiro do mundo”; sobre o primeiro dia de um menino na escola. Isso é só uma amostra de um monte de coisas boas (o conto “Amor aos pedaços”, do Reginaldo, é um dos meus favoritos). É agradável constatar que a prosa portuguesa, que soa muito bem aos ouvidos, ganhou um colorido especial por terras africanas.

Bom, peguei alguns livros, que gosto bué, como diriam os angolanos, para comentar. Começo pelo “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto” (Cia. das Letras), do Mário de Carvalho. O livro é de um sarcasmo corrosivo, narra “a comédia de toda geração portuguesa – aquela que chegou à vida adulta durante a redemocratização de Portugal, a partir da revolução de 25 de abril de 1974. O protagonista, um burocrata cinquentão, vê seus projetos de vida fracassarem um por um. Relegado na empresa, que passa por um processo de modernização, toma a primeira decisão drástica da sua vida: entrar para o Partido Comunista”. Difícil tentar convencer alguém de que um livro é bom, apenas transcrevendo um pedacinho de sua orelha. Mas podem crer, vale a pena. O Mário de Carvalho sabe escrever com humor e tem uma maneira peculiar de conversar com o leitor (ficou ruim essa rima).

“Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” (Cia. das Letras) foi o primeiro romance que li do escritor moçambicano Mia Couto. Apesar do título, que me pareceu pretensioso, aceitei a dica da Carla (a meiga), e o levei para casa. Depois deste enfileirei mais três, pois achei a sua escrita mágica. Se antes falei que a prosa portuguesa soa bem aos ouvidos, a dele, além disso, adiciona cores e sabores. Grande parte de seus romances e contos retrata um conflito bastante presente na África, o passado colonial e a reconstrução pós-revolucionária (não pensem, com isso, que encontrarão ali uma literatura panfletária ou um ranço terceiro-mundista, no entanto, essa vivência agrega em sua literatura). Depois dessa quase imersão, busquei em minha biblioteca uma velha antologia de contos moçambicanos que herdei do meu pai. A seleção foi realizada pelo Ricardo Ramos, filho do Graciliano. E lá estava ele, Mia Couto, um iniciante, e eram dele os melhores contos da antologia. Agora ele já é conhecido e badalado pela crítica, é até fácil elogiar; foi bom tê-lo conhecido antes de ficar famoso.

Pertinho dali, em Angola, temos o escritor Ondjaki, de quem tive o prazer de ler “Avó dezanove e o segredo do soviético” (Cia. das Letras), também uma sugestão da Carla, mencionada antes. A história, narrada por uma criança, passa-se em Luanda, logo após a revolução, e conta a construção do mausoléu para o falecido presidente Agostinho Neto (o qual ficou conhecido como Foguetão; o mausoléu, não o Agostinho Neto). Um trecho da orelha:

“Em Luanda, depois da independência de Angola, mas ainda com a presença de estrangeiros tão diferentes entre si – como portugueses, cubanos e soviéticos –, moradores de um pequeno bairro se veem em meio ao turbilhão da história. A fantasia da infância e a crueza da política se cruzam nesta narrativa em que a imaginação de um menino consegue, ao menos no plano da fabulação, vencer a avalanche da realidade”. Este livro foi um dos concorrentes ao prêmio Portugal Telecom de Literatura.

Estou quase no fim, então não posso deixar de mencionar o angolano José Eduardo Agualusa, do qual terminei há pouco um romance (e também já li alguns contos excelentes), “As mulheres do meu pai”, uma espécie de road movie (road book, existe isso?).

Poderia dizer que deixei o melhor para o final, mas tudo é uma questão de gosto. Ele ficou para o fim por ser o mais famoso. Já devem ter reparado, deixei para o final o Saramago, recentemente falecido. Redundância dizer que ele é bom. Para quem nunca o leu, para uma aproximação, recomendo um contato mais ameno. Sugiro o “Conto da ilha desconhecida”, uma história breve, cerca de quatro horas de leitura, se tanto. Por aí tem-se uma ideia de sua prosa pouco usual, de parágrafos enormes, e também da fineza de sua ironia. Depois, mantendo a linha irônica, mas “adensando” um pouquinho, “As intermitências da morte” (a história de um país onde as pessoas param de morrer; mais não digo para não perder a graça). Pronto para ir adiante? Experimente “História do cerco de Lisboa”; um revisor de uma editora retira, propositalmente, a palavra “não” do livro de história em que está trabalhando (a do cerco de Lisboa, pelos mouros). A simples supressão da palavra altera o rumo dos acontecimentos. Convidado pelo editor, aceita o desafio de reescrever o livro conforme o resultado de sua ação. Ficaram curiosos? Ele não recebeu o Nobel por acaso (por sinal, seu discurso em Estocolmo, quando recebeu o prêmio, é emocionante, se alguém se interessar devo ter o arquivo guardado, algures no HD do meu “tip-top”). Exceto o “Memorial do convento” (excelente romance, um dos meus preferidos), todos os livros do Saramago foram editados pela Cia. das Letras (mas posso estar enganado, é claro).

É evidente que deixei de mencionar muita gente boa. Os clássicos são os clássicos, nem é preciso que se diga coisa alguma sobre eles. Dos contemporâneos, grande parte ainda não li (o Lobo Antunes, por exemplo, de vasta bibliografia, ainda não me caiu nas mãos). Quem sabe não serão assunto daqui a alguns meses?

Abraço,

Nelson Safi

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Nelson Safi

Nasceu em Porto Alegre faz tempo. Iniciou na literatura em 2002 ingressando na Oficina de Contos de Charles Kiefer. Ganhou uns prêmios por aí. Em 2004 lançou seu primeiro livro de contos (por enquanto o único), Balas de coco e outras histórias amargas, e ainda participou da antologia 101 que contam, organizada por Charles Kiefer. Em 2005 participou das antologias brevíssimos! e Histórias de quinta, organização de Charles Kiefer. Em 2006 participou das antologias Contos do novo milênio, editada pelo IEL – Instituto Estadual do Livro, e 103 que contam, ambas organizadas por Charles Kiefer. Por enquanto era isso.

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A partir desta data, Nelson Safi passa colaborar com o blog da Palavraria mensalmente, na terceira sexta-feira do mês.

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Vai rolar na Palavraria, 20/11: Jeferson Tenório, Ronald Augusto e Sidnei Schneider conversam sobre a obra de Oliveira da Silveira

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20, sábado, 18h30: Jeferson Tenório, Ronald Augusto e Sidnei Schneider conversam sobre a obra de Oliveira da Silveira. Palavra – Alegria da Influência,  Encontros literários na Palavraria, promoção do Jornal Vaia.

Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em março de 1977. É professor estadual de Literatura e Língua Portuguesa e também estudante de Letras da UFRGS.  Em 2007, foi destaque no prêmio Palco Habitasul, com o conto A beleza e a tristeza. Em 2008 e 2009, teve o conto adaptado para uma peça teatral, com estreia no Theatro São Pedro. Em 2008, foi menção honrosa no concurso de contos Paulo Leminski, com o texto Cavalos não choram.

Ronald Augusto. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). É co-editor, ao lado de Ronaldo Machado, da Editora Éblis e também editor associado da revista virtual Sibila. Tem poemas traduzidos para o inglês e o  alemão. Publicou artigos e/ou ensaios sobre poesia em diversas revistas do Brasil e sites de literatura. Ministra oficinas e cursos de poesia e é integrante do grupo os poETs.

Sidnei Schneider é poeta, tradutor e contista. Autor dos livros de poesia Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999) e tradutor de Versos Singelos/José Martí (SBS, 1997). Participa de Poesia Sempre (Biblioteca Nacional/MinC, 2001), Antologia do Sul (Assembléia Legislativa, 2001), O Melhor da Festa (Nova Roma, 2009) e de outras dez publicações. 1º lugar no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS, 2003 e 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM, 1995, de um total de treze premiações. Publicou artigos, poemas, contos e traduções de poesia em jornais e revistas.

Oliveira Ferreira da Silveira (Rosário do Sul, 1941 – Porto Alegre, 2009). Graduado em Letras – Português e Francês com as respectivas Literaturas – pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. Docente de português e literatura no ensino médio exerceu atividades jornalísticas e foi ativista do Movimento Negro. Publicou até 2005 dez títulos individuais de poesia – Pêlo escuro, Roteiro dos tantãs, Poema sobre Palmares, entre outros – e participou de antologias e coletâneas no país e no exterior.

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