Arquivo para 14 de janeiro de 2011

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Conversas na biblioteca, com Carla Osório: Pepe Carvalho, um caso não solucionado

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Pepe Carvalho: Um caso não solucionado – Tomo I, por Carla Osório

Escrever sobre Pepe Carvalho é o exercício das contradições. Conheci-o há alguns anos e ele me intrigou tanto que passei a procurá-lo nas livrarias de todas as cidades. Como não o conheci desde o nascimento, ele foi me surpreendendo através de suas memórias.

Claro que Pepe Carvalho não é um autor (se bem que poderia ter sido), mas sim um personagem das novelas policiais de Manuel Vasquez Montalban.

Pepe é um detetive particular, ex-comunista, que mora em Barcelona, culto, irônico, ex-agente da CIA e QUEIMA livros.

Resumi a contradição?

Não, claro que não. Ela é estampada em cada livro, em cada dúvida, em cada solução de caso. Ele assume o desencanto e nos mostra uma Espanha em transição. Mas não somente a Espanha, o mundo que vivemos, a América Latina pós-ditaduras, o leste europeu pós União Soviética, e também nos traz uma ternura pelos vários lugares por onde Pepe (ou Montalban) passou, pelas cidades, pelos restaurantes, pelos bares, e principalmente pela comida. São tantas as peles que ele já vestiu que um desavisado poderia considerá-lo uma miscelânia, comparado a Poirot, por exemplo, que foi sempre Poirot em todas as circunstâncias. Mas Pepe muda, desiste, insiste, cansa e retorna faminto.

Aliás, a gastronomia, além do passado de ativista de esquerda, une Pepe Carvalho a Salvo Montalbano (personagem das novelas policiais de Andrea Camilleri). Ambos são capazes de percorrer quilômetros somente para apreciar um determinado prato em um restaurante que poucos conhecem, mas cujo cozinheiro ou cozinheira são excelentes. As receitas transcritas nos livros de Montalban foram editadas em um livro que infelizmente não foi publicado no Brasil.

A surpresa de Pepe ter trabalhado para a CIA, sendo quem é, foi difícil de digerir, ainda mais considerando o autor do personagem, que por seu lado é inclusive personagem de um livro de Juan Taibo II e do Comandante Marcos (Mortos Incômodos, publicado pela Editora Planeta). Essa é uma história que precisa ser contada – Companhia das Letras, por favor, publique os romances mais antigos do Montalban. Afinal, precisamos saber as motivações que o levaram a trabalhar com a CIA.

Sei que liberado da CIA e voltando para a Espanha começa a queimar livros, os primeiros são España como problema, de Laín Entralgo, y el Quijote (cruzes!!!). O que significa queimar livros? Seria uma metáfora para a libertação dos antigos mestres ou simplesmente ignorar o conhecimento acumulado pela humanidade. A queima de livros foi sempre uma forma do povo dominador reprimir a história do dominado. O Index (livros proibidos) do cristianismo é um exemplo desse fato, a história está recheada desse comportamento.

Qual o significado para Pepe Carvalho queimar seus livros eu ainda não descobri, mas é um fato que me incomoda e desconfio que Montalban via com desconfiança esse ato.

A criatura terá dominado o criador?

Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

As Conversas na Biblioteca, de Carla Osório, são publicadas neste blog na segunda sexta-feira de cada mês.

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