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A quase-crônica de Nelson Safi: Los Angeles Lakers x New Jersey Nets

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Los Angeles Lakers x New Jersey Nets, por Nelson Safi

O ano é 1992, estamos na década de ouro da liga profissional de basquete dos EUA, a NBA. Final de jogo no Fórum de Inglewood, em Los Angeles, vitória do Lakers sobre o Nets. Os jogadores conversam entre si enquanto se dirigem aos seus vestiários, repórteres os entrevistam aqui e acolá. O pivô Vlade Divac, do Lakers, tenta brincar com seu ex-compatriota Drazen Petrovic, ala-armador do Nets, que o cumprimenta de forma protocolar, vira-se e segue para o vestiário dos visitantes.

Para compreender esta cena precisamos voltar um pouco mais no tempo. Em 1986 Petrovic transferiu-se para a liga profissional norte-americana, um dos primeiros a entrar naquele clube fechado. Foi contratado pelo Portland Trail Blazers, mas não deslanchou como esperava, ele que foi considerado o melhor jogador europeu de todos os tempos. Divac, seu colega na seleção iugoslava, transferiu-se em 1989 para o Los Angeles Lakers (o segundo europeu na NBA). Teve mais sorte em sua adaptação, mesmo com a difícil incumbência de substituir o mitológico Kareem Abdul-Jabbar; seu jogo de alta técnica e sua simpatia logo conquistaram o time e a torcida, apesar do inglês macarrônico. Petrovic telefonava diariamente para Divac, chorando suas mágoas por não conseguir o merecido espaço. Divac, ao contrário, estava feliz em seu clube e numa cidade onde o frio não existia. Vamos pular para 1990, Campeonato Mundial de Basquete na Argentina (a fase final foi disputada no Luna Park, um templo do esporte em Buenos Aires). A Iuguslávia já havia sido bronze no Mundial da Espanha (1986), prata na Olimpíada de Seul (1988) e ouro no Eurobasket (1989). Era um time jovem e unido, que estava junto há bastante tempo. Entretanto, fora do esporte, os ventos vinham mudando na Iugoslávia, onde alguns dos antigos territórios eslavos que compunham o país mostravam seu desejo de independência, em especial a Croácia. A final do campeonato foi uma revanche contra a URSS, vencedora na Espanha, vitória fácil dos iuguslavos por 92 a 75. Após o apito de final de jogo, Petrovic corre para abraçar seu amigo Divac. Durante a comemoração alguns torcedores, com bandeiras da Croácia, entram na quadra e se aproximam dos atletas. O sérvio Divac, então, comete o grande erro de sua vida, arranca a bandeira croata das mãos do torcedor e a joga longe, dizendo que ali eram todos iuguslavos. O croata Petrovic observa sua atitude, como que desapontado. A partir dali a amizade entre os dois não existiria mais. A imprensa croata transformou Divac em um grande vilão. Não muito depois iniciaram-se os conflitos armados entre os dois povos, com atrocidades de ambas as partes.

E o que a amizade entre Vlade Divac e Drazen Petrovic tem a ver com a literatura? Diretamente, nada. Indiretamente, tudo a ver com o romance “O pintor de batalhas”, de Arturo Pérez-Reverte (Companhia das Letras; 2008). O livro conta a história do fotógrafo correspondente de guerra Andrés Faulques, que depois de trinta anos vivenciando diversos conflitos em todos os continentes, adquire um velho castelo na Espanha, sua terra natal, e decide criar um mural com algumas das principais batalhas, que passaram por suas lentes e continuam a acontecer em sua memória. Como ele dizia, pretendia pintar a essência da guerra.

É um livro com ingredientes para agradar a diversos gostos. Em primeiro lugar, uma trama muito boa. Afinal, por que Andrés, um fotógrafo com grande reconhecimento e prestígio pelo seu trabalho, decide levar uma vida de reclusão enquanto trabalha em seu mural? Quem é e qual o propósito de Ivo Markovic, que visita o pintor em seu castelo e com quem trava longas e instigantes conversas?

Para apreciadores das artes plásticas, vale para conhecer ou recordar os quadros que inspiraram o protagonista (graças à internet, santo Google, conheci diversos quadros que o inspiraram e pude constatar o quanto estão relacionados às batalhas vivenciadas pelo fotógrafo). Aos apreciadores de fotografia interessa pela apresentação das técnicas empregadas nas diversas situações de combate (o que nos permite enxergar a cena e os efeitos fotográficos obtidos).

Gosto muito do Arturo Pérez-Reverte e recomendo seus livros (leiam também “O mestre de esgrima” e “O clube Dumas”, entre outros, também da Companhia das Letras). Desconhecia, a seu respeito, que ele próprio foi um fotógrafo de guerras. Assim, muito do que é retratado neste livro vem de sua experiência pessoal. É um romance de ficção, mas com fortes elementos autobiográficos. Para o meu gosto foi o seu melhor livro escrito até hoje.

Observação: vale a pena, também, assistir o documentário “Once brothers – A história de Vlade Divac e Drazen Petrovic” (produção da ESPN).

Abraço,

Nelson Safi

Nelson Safi

Nasceu em Porto Alegre faz tempo. Iniciou na literatura em 2002 ingressando na Oficina de Contos de Charles Kiefer. Ganhou uns prêmios por aí. Em 2004 lançou seu primeiro livro de contos (por enquanto o único), Balas de coco e outras histórias amargas, e ainda participou da antologia 101 que contam, organizada por Charles Kiefer. Em 2005 participou das antologias brevíssimos! e Histórias de quinta, organização de Charles Kiefer. Em 2006 participou das antologias Contos do novo milênio, editada pelo IEL – Instituto Estadual do Livro, e 103 que contam, ambas organizadas por Charles Kiefer

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Nelson Safi publica no blog da Palavraria mensalmente, na terceira sexta-feira do mês.

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