Arquivo para 29 de janeiro de 2011

29
jan
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Recordando (2)

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Recordando (2), por Jaime Medeiros Júnior

Ronald Augusto diz no título de seu mais recente post do poesia-pau [blog de sua lavra]: o passado não tem fim. Eu concordo. Situemo-nos no primevo, no tempo das primícias, no tempo de antes, in illo tempore. No tempo ligeiramente antes do tempo e onde, portanto, ligeiramente já não pode ter qualquer significado. E onde quando parece não nos garantir mais nenhum acesso. Mas como poderemos retornar, há algum ponto de não retorno? Quem estará por lá a te esperar? Me preparei para o recordar.

Mesmo que tenhamos convencionado erguer um tempo dos inícios, em verdade ele parece se radicar antes do fosso infinito de nossa experiência. Queiramos ou não, conhecemos não as raízes, mas, isto sim, o sabor, a textura, o aroma, o sentimento [a memória] daqueles tempos que parecem nos conduzir a um lugar, a uma experiência que queremos repetir, recordar [por novamente no coração], uma experiência capaz de restaurar significados, de nos pôr crianças, de nos fazer brincar [que se fôssemos rastrear etimologias acabaríamos entendendo que brincar é unir, juntar o separado]. Parece que o que realmente conseguimos erguer, é sim, um símile daqueles tempos. Onde nos pomos diante de sensações que tentam repetir aquela nossa primeira experiência. Sem repetição não temos passado, não temos aprendizado, e sem aprendiz não temos futuro.

Dando largas à brincadeira, retornamos aos pré-socráticos, os primeiros [os milésios, Parmênides e Heráclito], que acordam de dentro de um mundo inda feito de sombras arranjadas em patchwork. Retalhos combinados com certo senso estético, e com a preocupação de contar uma história. O politeísmo obrigava a pôr todo o sentido da diversidade na trama, na intriga, no enredo de historinhas mui complexas e contraditórias. Acordaram e conseguiram construir um novo mundo. Como? Procurando pela arché, um princípio, um início, uma primeira matéria, que estava para além de toda a aparente diversidade das coisas sensíveis, e da qual tudo se comporia.

O que aconteceu? Cada um acabou por nos contar uma nova historinha, erguida a partir do seu próprio início. Tales se precipitou na água. Anaximandro adentrou o brumoso ápeiron [o ilimitado, o sem limites]. Anaxímenes fala-nos com muito alento do pneuma. Heráclito, que sabia que não poderíamos nunca nos banhar no mesmo rio, identificou o princípio de tudo ao lógos [fogo] em eterno movimento de ascensão e descenso. Para Parmênides tudo era uma questão de ser e não de não ser. Alcançaram o novo procurando a raiz mesma das coisas.

Hoje quando a modernidade nos surrupiou todos os modelos, e nos condenou a um perpétuo inovar. Quando nos aconselhou a descrer dos mestres, e nos ensinou a blasfêmia como forma legítima de criar novos sucedâneos em arte. Aqui, talvez, tenhamos começado a perder o futuro que nos fora reservado. O que nos lembra Eco fazendo a afirmação da idade média como uma idade de luzes, diz de um modo lapidar: a tradição patrística como único testemunho da cultura clássica, trabalha comentando e citando fórmulas autorizadas, com o ar de dizer nunca nada de novo. Não é verdade; a cultura medieval tem o sentido da inovação, mas procura escondê-la sob as vestes da repetição [ao contrário da cultura moderna que finge inovar mesmo quando repete].

A moça tinha 29 anos, morreu. Levo um susto. Ela para além de ter dividido alguns minutos do mesmo espaço cotidiano, era um daqueles marcos que se impõem significativos, mesmo que desconhecidos. A morte ergue seu manto sobre um de nós. E de repente já não testemunhamos mais nada dela. E o que resta acabamos por depositar, com todo o cuidado que lhe devemos, ali entre os ícones e relíquias que concebemos para honrar o inapreensível.

Agora talvez inda devêssemos perguntar: este espaço que construímos em nosso coração, suposto símile daqueles tempos, desempenha uma função simbólica, medianeira, entre o nosso espírito e aqueloutro mundo, que não experimentamos, e que contudo é sua representação, ou o nosso clamor por aqueloutro mundo [onde futuro e antanho acabam por se confundir] já não é um símile, mas sim, um tanto dele em nós, ou ainda este símile é pura invenção, que a nada se refere e, portanto, nada representa? Mesmo sem resposta definitiva sigo a cuidar do que cabe em meus peçuelos. Até o dia em que, finalmente, tiverem de se acabar todos os registros.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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29
jan
11

Palavraria informa: mudança no horário de atendimento

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Palavraria informa:

A partir de 31 de janeiro, até 26 de fevereiro de 2010, o horário de atendimento da Palavraria será das 12 às 20h, de segunda à sexta-feira.

Palavraria – Livraria-Café
Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim
e Telefone 051 32684260
palavraria@palavraria.com.br

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