Arquivo para 23 de fevereiro de 2011

23
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Black swan

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Black Swan, por Jaime Medeiros Júnior

Natalie Portman é definitivamente grande. Todavia o cisne negro, para mim, é definitivamente mais um dramalhão, um clichê. Parentesco entre arte e loucura. A técnica oposta “ao se deixar levar”, forma única de chegar ao original. Ambientar tudo isto dentro de uma atmosfera de sedução. Isto tudo rende uma boa torrente de lágrimas, leva a um exagero de sentimentos. Talvez possa se aproveitar alguma coisa disso tudo se aceitarmos a película como uma alegoria, mas definitivamente é muito difícil de engolir enquanto drama.

O “se deixar levar” volta e meia repisado pelos hollywoodianos, parece sempre ganhar em significância quando não o opomos à técnica, mas, isto sim, o entendemos como o elemento inusitado que desta mesma técnica se deriva. Algo disso parece estar escondido nos próprios termos, quando recordamos que o vocábulo grego teknè ou techne foi traduzido como ars pelos latinos. E que o que se convencionou chamar Arte é fundamentalmente a experiência desta técnica. Como o homem vive, por assim dizer, em diversos planos, esta experiência não se dá de modo unívoco dentro de todos estes planos. E talvez fruamos esta arte de modo mais abrangente justamente quando a amadurecemos em todos estes planos. Mas o que aqui é importante é que isso se resolve sempre empiricamente, experimentando, fazendo, e fundamentalmente, imitando. Portanto a arte antes de ser o novo é, fundamentalmente, imitação.

Lembramos então outro filme: A partida, filme japonês que também nos fala sobre arte. Ao modo oriental, que parece fazer aquilo que alguns de nós fizeram com o absoluto [com deus] também com a arte [só não jogaram fora a criança junto com a água do banho] quando rompe com a solução de continuidade entre os mundos: da arte e o cotidiano. O quanto o preparar o corpo morto de alguém para ser enterrado, ou mesmo incinerado, momento efêmero como a própria vida, pode ser experimentado como arte. O quão importante é tentar arranjar, pela experiência, do melhor modo que neste qualquer momento formos capazes de fazer, sem esperar um maior ganho do que o bem tê-lo feito [isso nos aproxima de certos conceitos, que talvez valesse a pena ser relembrados, como o de graça]. Tudo isso nasce do apreço e da dedicação ao que é feito, da atenção dispensada a ação. Este tipo de arte se abre aos sentimentos, é feita por homens, e este um do tantos planos da experiência humana. Mas aqui quer se evitar os desvarios, os exageros já não são necessários.

Por fim, a sedução parece ser uma promessa. Uma promessa no mais das vezes enganosa. Quem se deixa seduzir crê em quem ou no que o seduz. Para se seduzir ou ser seduzido é mais conveniente crer-se num mundo cindido, onde o mundo da arte e o cotidiano são diferentes e, bem possivelmente, opostos. Um mundo para únicos e originais, e no qual se erige ídolo o novo.

Para encerrar, confesso que também estarei na torcida para que Natalie venha a ganhar o Oscar.

Um ab a todos

Jaime

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.



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