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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Black swan

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Black Swan, por Jaime Medeiros Júnior

Natalie Portman é definitivamente grande. Todavia o cisne negro, para mim, é definitivamente mais um dramalhão, um clichê. Parentesco entre arte e loucura. A técnica oposta “ao se deixar levar”, forma única de chegar ao original. Ambientar tudo isto dentro de uma atmosfera de sedução. Isto tudo rende uma boa torrente de lágrimas, leva a um exagero de sentimentos. Talvez possa se aproveitar alguma coisa disso tudo se aceitarmos a película como uma alegoria, mas definitivamente é muito difícil de engolir enquanto drama.

O “se deixar levar” volta e meia repisado pelos hollywoodianos, parece sempre ganhar em significância quando não o opomos à técnica, mas, isto sim, o entendemos como o elemento inusitado que desta mesma técnica se deriva. Algo disso parece estar escondido nos próprios termos, quando recordamos que o vocábulo grego teknè ou techne foi traduzido como ars pelos latinos. E que o que se convencionou chamar Arte é fundamentalmente a experiência desta técnica. Como o homem vive, por assim dizer, em diversos planos, esta experiência não se dá de modo unívoco dentro de todos estes planos. E talvez fruamos esta arte de modo mais abrangente justamente quando a amadurecemos em todos estes planos. Mas o que aqui é importante é que isso se resolve sempre empiricamente, experimentando, fazendo, e fundamentalmente, imitando. Portanto a arte antes de ser o novo é, fundamentalmente, imitação.

Lembramos então outro filme: A partida, filme japonês que também nos fala sobre arte. Ao modo oriental, que parece fazer aquilo que alguns de nós fizeram com o absoluto [com deus] também com a arte [só não jogaram fora a criança junto com a água do banho] quando rompe com a solução de continuidade entre os mundos: da arte e o cotidiano. O quanto o preparar o corpo morto de alguém para ser enterrado, ou mesmo incinerado, momento efêmero como a própria vida, pode ser experimentado como arte. O quão importante é tentar arranjar, pela experiência, do melhor modo que neste qualquer momento formos capazes de fazer, sem esperar um maior ganho do que o bem tê-lo feito [isso nos aproxima de certos conceitos, que talvez valesse a pena ser relembrados, como o de graça]. Tudo isso nasce do apreço e da dedicação ao que é feito, da atenção dispensada a ação. Este tipo de arte se abre aos sentimentos, é feita por homens, e este um do tantos planos da experiência humana. Mas aqui quer se evitar os desvarios, os exageros já não são necessários.

Por fim, a sedução parece ser uma promessa. Uma promessa no mais das vezes enganosa. Quem se deixa seduzir crê em quem ou no que o seduz. Para se seduzir ou ser seduzido é mais conveniente crer-se num mundo cindido, onde o mundo da arte e o cotidiano são diferentes e, bem possivelmente, opostos. Um mundo para únicos e originais, e no qual se erige ídolo o novo.

Para encerrar, confesso que também estarei na torcida para que Natalie venha a ganhar o Oscar.

Um ab a todos

Jaime

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.



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3 Responses to “A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Black swan”


  1. 1 CAROLINA STUDART
    28 de fevereiro de 2011 às 12:54

    Jayme,bom dia,
    Concordo em numero e grau com teu comentário elucidaditvo-filosófico.Esperei mais de Darren Aronofsky.Nao vi nada que nao fosse uma mistura de um suspensezinho com o problema do perfecicionismo visto de forma inadequada e distorcida.Confesso que meu desjejum às salas de cinema valeu pela musica de Tchaicóvsky. Fui levada pelo meu genro e minha filha(à força, rsss!)ao cinema,após 25 anos ausente.Só assisto aos filmes no home do meu quarto ou nouta sala para filmes ditos profundos(adoro pausar).Pensei que valeria o sacrifíco que para mim é ir ao cinema em shoppings,detesto. Sentei-me, comendo a tradicional pipoca, como todo mundo. Como pessoas sentam-se aos pés de grandes diretores de arte cinematógráfica,consultores de estilos de vida, de problemas intimistas com viés freudiano ou lacaniano, misticos, coisas cults enfim, à espera de algum insight profundo,para entender como esses individuos produzem sabedoria ou adquirem-na. Infelizmente, neste caso,me sinto enganada pela pseudoprofundidade. Reatesto mais uma vez a falácia dos especialistas em marketing, que sabem enganar bem e fazer com que a arte de soar profundo seja dominada pela facilidade.Todos nós se quiséssemos também poderiamos fazer declarações que aparentassem ser profundas e de significação.Nem isso o filme de Aronofsky conseguiu.Uma das maneiras que já observei nesses ditos “profundos” é o saber declarar o óbvio com bastante formalidade e pausas de muito significado , pois logo poderá descobrir-se que outros começam a concordar com você, talvez murmurando “como isso é verdade”. Exemplifico com o tema perfeccionismos enfocado no filme e o “deixe-se levar”, jargao do diretor da peça, sem ética e moral.Nada mais falso.Encheu meu saco!!É fácil gerar sua próprias pseudoprofundidades, agindo assim.Certamente ficará menos impressionado da proxima vez com o que leu ou o que viu com elas. “A vida é muitas vezes uma forma de morte….”. slogans do Partido em 1884,de George Orwell, que reuniu de modo duvidoso palavras com sentidos opostos, tal como Guerra e Paz. Um outro modo fácil de gerar a ilusao de profundidade.
    Arre- égua!!!com todo o respeito, nós cearenses costumamos dizer isso,quando algo nos surpeende para o bom ou o mau. Nesse caso tire sua conclusão.A esssa altura, óbvia!!abçs carolina Studart

  2. 24 de fevereiro de 2011 às 22:09

    Fui ver o Cisne!
    E…achei os personagens tão estereotipados…a protagonista sofrendo sempre, com aquela carinha sempre torturada, o diretor do balé um tirano, poderoso (será que são mesmo assim??) e a mãe…Ah, a mãe, a recalcada, culpada de tudo!!!
    Como uma legítima representante das “idishe mames” gaúchas, eu protesto!!!!!!!!!!!!!
    Porque sempre a mãe??

    Abraços aos amigos da Palavraria,
    MTolpolar

    PS: Jayme, eu tb torço por ela…linda, ótima atriz e… brevemente uma “idishe mame” tb!

  3. 3 Tiago Cardoso
    23 de fevereiro de 2011 às 17:03

    Prezado Jaime, concordamos quanto à protagonista do filme. Não pude identificar qual seria o argumento que apresentas para afirmar que o filme é um clichê. No texto, isso não restou claro para mim. Dizes que o filme é um clichê e, na seqüência, acrescentas: “parentesco entre arte e loucura”. Isso significa que “clichê” é essa relação (que aproxima/familiariza arte e loucura)? O filme é sedutor, chegas a essa conclusão, ao que parece.Pensas que esta característica é demeritória (ao filme)? Dizes que a sedução engana. Penso que, dessa forma, assentas a sedução num terreno estranho a ela, qual seja, o terreno da razão. A sedução tem lugar sim entre os sentidos, dos quais Descartes tinha tanto receio, e que, ao que me parece, a proposta deste filme busca homenagear: a sensualidade, os sentidos humanos. Afinal, não é esse o embate principal, travado entre a protagonista e a figura materna, entre a protagonista e ela mesma? Uma batalha entre os sentidos e a racionalidade (nela localizado o cálculo, o controle, a frigidez). Outra coisa: por que não pareceria possível, para ti, que o filme seja considerado sim uma alegoria? Saudações!


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