Arquivo para 25 de março de 2011

25
mar
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A quase-crônica de Nelson Safi: O tradutor traduz o autor?

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O tradutor traduz o autor? – por Nelson Safi

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Quando um autor é bom a gente logo percebe. E todo mundo sabe, cada um tem seu jeito de escrever, o que obviamente explica o fato de alguns agradarem mais do que outros. Se estamos falando de textos em nossa língua, mesmo com os nuances regionais, seja qual for a região do planeta, ainda assim será a nossa língua.

E o que dizer dos autores estrangeiros? Em algum momento chega a informação de que fulano é um bom escritor e alguém decide publicá-lo em português (vamos fazer de conta que é simples assim). É evidente que as editoras contam com tradutores qualificados, pelo menos é o que se espera. Como garantir que o jeito especial do autor se expressar, a maneira como ordena suas frases que dá um sentido (ou vários) ao que pretende dizer será alcançada na tradução? Pois é, não é fácil, nada fácil. O tradutor é, de certa forma, um escritor. Aliás, muitos escritores conhecidos são ou foram tradutores. Aqui no estado temos e tivemos vários e, sem querer ser bairrista, creio que de boa qualidade em sua maioria.

Do meu mais profundo “achismo” vem a convicção de que o trabalho de tradução é tão desgastante que, mesmo sendo ele um escritor, não sobrará fôlego para escrever o seu próprio texto. Acredito que o tradutor gaste tanta energia e talento para reproduzir em sua língua o autor original, que pouco ou nada sobre para ele próprio.

E qual seria o maior dilema do tradutor durante a sua maratona profissional? Com certeza ocorre quando este se depara com uma palavra, situação ou expressão que, em hipótese alguma, teria correspondência em nosso idioma. É a hora em que o tradutor tem que ser infiel para ser fiel (estou aqui fazendo uso de uma expressão que o Sergio Faraco utilizou em uma palestra que tive a felicidade de assistir). Ou seja, para preservar a literariedade, a qualidade do autor original, o tradutor se vê obrigado a inventar ou, então, utilizar outra expressão que alcance o mesmo impacto. De tradução o Sergio Faraco entende muito, é dele a melhor versão em português de um livro do uruguaio Mario Arregui, “Cavalos do amanhecer” (L&PM), cujo título original é “Los dos caminos” (onde estão os cavalos do título?). Mas lendo-se o livro, fica tudo muito claro (para se ter uma ideia da seriedade do trabalho, basta dizer que a tradução foi acompanhada de perto pelo Arregui, que concordou com as modificações). Por outro lado, querem ver como é difícil? Façamos o inverso. Basta pegar um texto, do Guimarães Rosa, por exemplo, e imaginá-lo em alemão, japonês, russo. É tarefa para muito poucos, realmente.

Bem, a verdade é que toda essa conversa acerca de traduções seria para falar do livro “O Tenente Quetange”, de I. N. Tyniánov (Cosac & Naify). Isso porque a tradutora, Aurora Bernardini, resolveu de maneira muito mais eficiente o jogo de palavras que dá nome ao livro (e origina toda a confusão). O livro é muito bom e engraçado, e vou pedir que confiem em mim sem que precise explicar a razão. Vou usar do velho recurso de reproduzir um texto da contracapa e contar que isso seja suficiente para despertar o interesse pela história:

“Correm os últimos anos do século XVII e Paulo I ocupa o trono de todas as Rússias, quando um escrivão militar, sonolento e estabanado, altera por acidente o curso da História ou, pelo menos, de uma história ou, melhor dizendo, de duas histórias…”

Ocorre que este livro tem outra história muito interessante, relatada no quase-prefácio de Boris Schnaiderman (responsável por algumas das melhores traduções de Anton Tchékhov). Ele conta um pouco da obra de Tyniánov, de suas peculiaridades, entre as quais o fato de ter permanecido ileso, tanto física como profissionalmente, durante todos os anos de Stálin, o qual por muito menos fazia despachar para um gulag.

Abraço,

Nelson Safi

Nelson Safi nasceu em Porto Alegre faz tempo. Iniciou na literatura em 2002 ingressando na Oficina de Contos de Charles Kiefer. Ganhou uns prêmios por aí. Em 2004 lançou seu primeiro livro de contos (por enquanto o único), Balas de coco e outras histórias amargas, e ainda participou da antologia 101 que contam, organizada por Charles Kiefer. Em 2005 participou das antologias brevíssimos! e Histórias de quinta, organização de Charles Kiefer. Em 2006 participou das antologias Contos do novo milênio, editada pelo IEL – Instituto Estadual do Livro, e 103 que contam, ambas organizadas por Charles Kiefer.

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Nelson Safi publica no blog da Palavraria mensalmente.

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25
mar
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Rocartê convida

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Dia 15 de Abril, a ROCARTÊ, acompanhada por mais duas bandas de Porto Alegre (Benjamin & Casamadre), fechará um ônibus para invadir o Popcult em Novo Hamburgo. Para explicar a jornada e motivar as pessoas a saírem da capital para assistir a três shows de rock na clássica festa FUNHOUSE, a ROCARTÊ preparou um vídeo secreto em seu Q.G.

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