Arquivo para 30 de maio de 2011

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Ficar de pé ou desmoronar-se: a experiência de leitura de Altair Martins

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Ficar de pé ou desmoronar-se, por Altair Martins

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Le Corbusier, em Por uma arquitetura, disse algo que é um tratado: que a arquitetura se confunde com a história de qualquer empreendimento humano, quando o homem ou é capaz de ficar de pé ou desmorona. Acho que isso vale para a leitura. E acho também que esse foi o meu caso.

Bem, começo explicando que vivi em uma casa onde não havia livros; meu irmão mais velho, Alex, num certo aniversário seu, ganhou da Professora Helnay um livro com um jacaré na capa. A professora o leu para as crianças que estavam na festa. Lembro a história – o jacaré que tinha um violão -, mas não lembro minha idade. Sei que, a partir de então, os livros se tornaram coisas nobres para mim, algo como objetos de se ficar apertando com as mãos. Porque eu lia com as mãos. E o que eu podia perceber com os livros, mesmo sem ainda saber de fato ler, era um outro modo de caminhar.

Comecei a ler oficialmente a partir das aulas regulares, sempre em escola e biblioteca pública: devorei toda a série vaga-lume (havia um número não muito extenso de títulos, e eu preferia os de aventura, como a Ilha Perdida, da Maria José Dupré, ou Os barcos de papel, acho que de José Maviael Monteiro; Menino de Asas, de Homero Homem – esse me fez sofrer muito. Depois, veio a descoberta da poesia, primeiro da ternura ora amarga ora lírica do Quintana; depois, o jeito do-contra de Drummond.

Por essa época entra o teatro com o impulso muito importante que isso me trouxe: o de aprender a ler pro outro. Digo isso porque muito leitor sofisticado não sabe ler. É só pedir uma leitura em voz alta pra ver como se engolem as vírgulas. Poesia, então, parece bula de remédio nuns bocas-tortas por aí. O teatro me ensinou a respirar lendo. (Recordo inclusive que foi como melhor ator de um festival de teatro que ganhei Guerra dentro da gente, de Paulo Leminski – maravilhoso).

A universidade. Bem, estudar francês e espanhol me levou a ler a tal literatura estrangeira. Admito que L’étranger, de Camus – primeiro livro em francês – mudou as solas dos meus pés. García Márquez me levou a um outro patamar de mundo, como se me desse pernas-de-pau.

Tudo isso, contudo, nada vale, nada diz em termos de sociedade. Quem é Camus ou quem é Machado para alguém que cruze uma avenida qualquer deste Brasil? O brasileiro lê muito pouco – não precisamos ir longe: o Brasil lê muito menos que o Uruguai e a Argentina. E o pior: o brasileiro lê pouco e muito mal. É presunçoso, já que aquilo que não entende não presta. Mas estimular a leitura na escola, por enquanto, é tarefa também de resistência, quando os pais não lêem nem dão condições à leitura. Eu ficaria contente se, ao menos, houvesse resguardo a uma criança que está lendo. Começa na educação familiar: uma criança está lendo, ora, esse é um momento religioso. Ela está em contato com o mundo e com deus? Não, senhores pais, ela está enfim em contato com ela mesma. Ela está exercitando uma parte mágica que mexe com emoção, com raciocínio, com criatividade. Seus valores estão em movimento. Sua cabeça está aprendendo a pensar pela via da linguagem, e assim ela está sendo batizada para interpretar o mundo. Porque interpretar as coisas da vida não é apenas ver e analisar e rir. É saber ver, interiorizar, moer e remoer, e, a partir de um mecanismo muito genuíno de cada um, interpretar. Interpretar: a primeira partícula dessa palavra diz muito, diz que é um caminho para dentro. Pelo amor de tudo quanto é santo, uma criança com o livro é uma criança abrindo um brinquedo para ver como é por dentro. O brinquedo, nesse caso, é ela mesma.

Com os livros aprendi muito sobre mim mesmo. Como Cecília, aprendi a me desmoronar e reedificar. Devo uma parcela considerável do que sou ao que li. Meus pés são feitos de compartilhações entre aquilo que a literatura me oportunizou e o que aproveitei de cada palavra. Como minhas condições eram difíceis desde a infância, parodiando Le Corbusier, ou os livros se me faziam pés ou eu me desmoronava. A leitura é sempre uma oportunidade. A leitura foi a minha oportunidade. Sem ler, creio que me acostumaria a olhar pro chão ignorante ao fato de que ele não me prende. Sem livros, um país pode crescer, mas não fica de pé.

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Altair Martins nasceu em Porto Alegre, em 1975. É bacharel em Letras e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS. Leciona em escolas de Porto Alegre e é responsável pela cadeira de Conto no Curso de formação de escritores das Unisinos, em São Leopoldo. Como escritor, estreou com a antologia de contos Como se moesse ferro (1999), seguida de Se choverem pássaros. A parede no escuro, seu primeiro romance, foi vencedor do segundo Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria Primeiro Romance, em 2009. Com seus livros anteriores, Altair Martins também foi vencedor do Prêmio Guimarães Rosa da Radio France Internationale, em 1999, do Prêmio Luiz Vilela e do Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, em 2001 e do Prêmio Açorianos na categoria Contos.

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