Arquivo para 1 de junho de 2011

01
jun
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Pequenas considerações sobre o mito

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Pequenas considerações sobre o mito, por Jaime Medeiros Júnior

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Tive uma conversa com dois amigos. Um deles afirmava com veemência que a etimologia de mito era a mesma de mentira, e que mito é fundamentalmente uma mentira. Procurei ponderar, mas não tinha argumentos para sacar de meus poucos lustros.

De qualquer forma o dissabor que me proporcionou tão categórica afirmativa me fez consultar o Houaiss eletrônico assim que pude me pôr diante do meu notebook. Diz o Houaiss: lat. mýthos ou mýthus,i ‘fábula, história’, do gr. mûthos,ou ‘id.’ . Isto posto, procurei então a etimologia de fábula: lat. fabùla,ae ‘conversa, boatos, narração alegórica, relato’ . Chegamos, deste modo, ao campo semântico da palavra mito: história, conversa, fábula, narrativa, conto que nos conduz ao alegórico, ao simbólico. Portanto estamos diante de uma historinha, diante de uma narrativa. Mas em que difere esta história de outras histórias? Arriscaria a pensar que fundamentalmente em dois quesitos: O primeiro a intenção de quem narra é fundamentalmente diferente daquela presente, por exemplo, na historinha para boi dormir ou no conto do vigário onde o autor pretende conduzir o ouvinte necessariamente a um engano. O mito não quer enganar, o mito se utiliza de uma história não verídica, para nos conduzir à verdade. O segundo é ao que se refere esta história, a uma verdade inalcançável, mas de pronto perceptível quando a colocamos neste pequeno receptáculo de alabastro o qual forjamos. Caberia perguntar: quando Saint-Exupéry nos fala das peripécias do principezinho e da saudade que ele sentia da flor que ficara lá no seu asteroide ele nos enganava?

De outra parte, temos narrativas que querem nos contar uma história real. Quem nos conta um fato nos conta dentro dos limites do que lhe é observável, do intuído por seus sentidos, e do campo de referências que lhe é familiar, portanto quanto de verdade há na realidade que nos contam? Aqui já não temos uma verdade, não devido a uma predisposição do narrador a querer nos enganar, mas sim, pelo o autoengano deste narrador que supôs que os sentidos pudessem nos entregar algo mais do que uma versão dos fatos.

De certa forma poderíamos dizer que o único modo que nos resta de nos aproximar da verdade é falando do inalcançável, do invisível. Portanto gostaria de dizer assim, algo resumidamente, que mito, símbolo, alegoria, poesia e metáfora são, de certa forma, ficções [mentiras?]; único meio capaz de nos levar a perceber o que nossos olhos não conseguem ver, a verdade inapreensível.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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